Os Melhores Filmes Lançados Nos Cinemas em 2024, de 1 de Janeiro a 31 de dezembro.
O Melhor Filme do Ano
“Ainda Estou Aqui” (2024) (Brasil) de Walter Salles
“Ainda Estou Aqui” merecia mais que as três indicações ao Oscar que teve: Melhor Atriz ( Fernanda Torres), Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Melhor Direção para Walter Salles, Melhor Ator Coadjuvante (Selton Mello) e Melhor Roteiro Adaptado (Murilo Hauser e Heitor Lorega) seriam bem vindos e justo.
Melhores, Sem Ordem de Preferência
1- “Zona de Interesse” (2023) (“The Zone of Interest”) de Jonathan Glazer ( Reino Unido, Polônia, EUA)
O conceito de Banalidade do Mal de Hannah Arendt encontra aqui a sua mais terrível tradução no Cinema, onde um chefe do campo de concentração de Auschwitz vive tranquilamente numa casa protótipo do regime nazista, ao lado do campo, com sua mulher e filhos, com Glazer deixando apenas parte do campo sendo visto pelo espectador, dando ênfase à fumaça que sobe e às torres de controle. O que importa para todos é a piscina, os pomares e o que podem obter de judeus, como casaco de peles.
2- “O Diabo na Rua no Meio do Redemunho” (2024) (Brasil) de Bia Lessa
Aqui temos a conjunção de três artistas geniais: o escritor Guimarães Rosa de “Grande Sertão; Veredas”, com sua singular prosa poética e metafísica; a fantástica artista multimídia Bia Lessa e o incrível ator Caio Blat, tanto exímio nas expressões corporais como nas ênfases no texto. Um conjunto de atores brilhantes completa o espetáculo que ganha teor cinematográfico forte, longe da teatralidade da montagem também feita por Bia.
Um jagunço (Riobaldo, Caio Blat) fica em dúvida a quem apoiar. Ao mesmo tempo apaixona-se por outro (Diadorim), o que o levará a torvelinhos de consciência.
3-“A Paixão Segundo G.H.” (2023) (Brasil) de Luiz Fernando Carvalho
Depois que sua empregada vai embora, uma mulher de classe média (esplendidamente vivida por Maria Fernanda Cândido) vai ao quartinho dela, se depara com uma barata e bate a porta nesta, deixando-a como que morta-viva, exalando uma gosma. Isto vai desencadear uma epifania nesta mulher diante da barata que causa tanto repulsa como atração. Sem querer dar spoilers, fica aqui a menção de que o desfecho é mais do que surpreendente.
Li o livro de Clarice Lispector e apesar da presença forte do texto, reconheço o quanto o filme tem de cinematográfico.
4- “O Quarto ao Lado (2024)” (“The Room Next Door”) (Espanha /EUA) de Pedro Almodóvar
Numa sessão de autógrafos a escritora Ingrid (Julianne Moore) fica sabendo que sua grande amiga Martha(Tilda Swinton) está internada num hospital com doença gravíssima. Restabelecido o encontro, com Martha perdendo as esperanças de que possa se curar e não querendo tratamentos que a façam sofrer mais, num país onde não há eutanásia (EUA) propõe a Ingrid que fiquem numa casa que tem e que esta fique no quarto ao lado. Encontrando a porta fechada é sinal de que Martha já ingeriu o que comprou num mercado clandestino.
É um filme de Almodóvar falado em inglês longe dos aspectos da cultura espanhola, mas temos aqui as cores de Almodóvar ( alguns planos lembram a solidão de Edward Hooper) e um tema recorrente em outras obras como ErosXThanatos, principalmente "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale Com Ela". No desfecho temos características de Tilda colocadas em ação a serviço do filme.
5- “O Sequestro do Papa” (2023) (“Rapito”) (Itália, França, Alemanha) de Marco Bellocchio
Marco Bellocchio é o mais longevo diretor italiano em atividade. Continua sempre surpreendendo com suas obras de viés humano e político, como fez há pouco com “O Traidor”. Aqui conta a história real de um garoto judeu que foi sequestrado para ser levado à companhia de um Papa e crescer aos cuidados deste. Aqui temos uma abordagem incomum do anti-semitismo.
Steven Spielberg queria filmar esta história, mas não encontrou atores adequados para fazer o garoto e seus outros estágios de crescimento.
6- “Ervas Secas” (2023) (Turquia) de Nuri Bilge Ceylan
Como em “Era Uma Vez na Anatólia”, “Sono de Inverno”, “A Árvore dos Frutos Selvagens”, este que se tornou o mais brilhante cineasta turco, em “Ervas Secas” traz dramas interpessoais, aqui até com acusações de assédio sexual, o que vai dificultar o sonho de um professor mudar-se para uma cidade grande, juntando tudo a discussões de caráter filosófico.
Pessimamente lançado só por uma semana e só no Cinesystem de Botafogo, me deixou fora de uma revisão que sempre faço dos filmes de um diretor com tantas complexidades.
7- “O Sabor da Vida” (2023) (“The Passion de Dodin Bouffant”) de Tran Anh Hung (França)
Do mesmo diretor vietnamita do clássico “O Cheiro do Papaia Verde”, temos aqui o amor à boa comida como metáfora do amor à vida, com interpretações notáveis de Juliette Binoche e Benoït Magimel (atores que trazem para o filme a química que já tiveram num relacionamento amoroso). Na autenticidade com que mostra a feitura detalhada de pratos sofisticados supera o clássico “A Festa de Babette” de Gabriel Axel. Mas “O Sabor da Vida” transcende, como o filme de Axel, o teor filme de gastronomia. É do prazer em viver que mais se fala.
8- “O Menino e a Garça” (2023) (Japão) de Hayao Miyazaki
Obra do prestigiado Estúdio Ghibli é um Miyazaki superando a ideia de aposentadoria, mostrando um menino que perde a mãe e vai seguindo trajetórias fantásticas junto a uma garça antropomorfizada.
Oscar de Melhor Animação, assim como “A Viagem de Chihiro”, do mesmo mestre Miyazaki, “O Menino e a Garça” nos leva a mundos paralelos onde há uma missão esperando pelo menino. Resta saber se ele irá aceitar.
9- “Pobres Criaturas” (2023) (“Poor Things”) de Yorgos Lanthimos (Irlanda, EUA, Reino Unido, Hungria)
A jovem suicida Bella Baxter (Emma Stone) é trazida de volta à vida, se valendo do seu feto, pelo cientista Godwin Baxter (Willen Dafoe). Em sua ânsia de conhecer o mundo ela viaja com um advogado que quer dominá-la (Mark Ruffalo), mas Bella não aceita amarras, preferindo até mesmo a prostituição a ser dominada por ele. Bella desafia as convenções sociais com uma escala própria de valores.
Com visual bastante criativo e extravagante típico de Lanthimos, “Pobres Criaturas é um filme único só encontrando paralelos com filmes do próprio diretor.
10- “O Conde de Monte Cristo” (2024) (França) de Alexandre de Patellière e Matthieu Delaporte
Em indicações ao César superou Emilia Pérez. Não é de surpreender pois tudo no filme é primoroso, da direção de arte ao trabalho estupendo de Pierre Niney, que faz Edmond Dantes preso por 14 anos por algo que não cometeu, por uma calúnia, no dia do seu casamento. Assim ele prepara sua vingança, usando uma plástica facial para passar por homem bem rico, A riqueza ele conseguiu por orientação de um preso com quem fez amizade, mas não sobrevive.
11-“Anatomia de Uma Queda” (2023) (“Anatomie d` Une Chute”) de Justine Triet (França)
Tem pontos de contato com “12 Homens e Uma Sentença” (1957) de Sidney Lumet onde é muito bem defendida a tese de que sem provas cabais não se pode condenar ninguém. O grande diferencial é que em “Anatomia de Uma Queda” temos uma interpretação sinuosa, firme, potente de Sandra Hüller, a mulher acusada de matar o marido. Ora tendemos a acreditar em sua inocência, ora desconfiamos dela. Sua absolvição ao final entra no caso de que não há provas cabais de culpabilidade. E o que é real? A crença na inocência da mãe por parte do garoto cego ou a vontade imperiosa de não perdê-la, dado que já perdeu o pai?
12- “Vidas Passadas “(2023) (“Past Lives”) de Celine Song (EUA)
Uma jovem, Nora, vai da Coréia aos EUA pois acredita que assim terá mais chances de ser escritora. Para tal deixa um namorado na Coréia, Hae Sung. Em Nova York anos depois se casará com um americano, Arthur, por amor e para conseguir um visto de permanência. O coreano vai procura-la 20 anos depois, rastreando-a em redes sociais. E temos uma discussão que reverbera em todos nós: causas e consequências de nossos atos, o que poderia ter sido de nossas vidas e não foi, armadilhas do destino etc. Um choro copioso ao final vai colocar em xeque tudo que vimos e ouvimos antes.
13- “Motel Destino” (2024) (Alemanha / Brasil) de Karim Aïnouz
Karim Aïnouz é um dos cineastas brasileiros mais desabridos a trabalhar a sexualidade humana no Cinema. Foi assim com “Madame Satã”, “O Céu de Suely”, “Praia do Futuro”, O mesmo ocorre agora com “Motel Destino”.
Depois de ato ilícito mal sucedido, sendo perseguido, Heraldo (Iago Xavier) se refugia num motel na periferia de Fortaleza, administrado por Dayana (Nataly Rocha) e seu marido Elias (Fábio Assunção). Seria um refúgio ideal se Heraldo e Dayana não se envolvessem, num nível que Elias descobre e planeja uma vingança contra os dois.
O motel como não poderia deixar de ser, resvala a sexo, com muitos barulhos, o que aguça a atração de Heraldo e Dayanna.
O filme pode ser tido como um neon-noir com desfecho imprevisível como tem estas histórias de amor, traição e violência.
O filme foi mal compreendido em Cannes pois lá fora o conceito de Motel é outro.
Nesta adaptação audaciosa para o Cinema de “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, feita por Guel Arraes e Jorge Furtado, uma gigantesca favela vai ser o Grande Sertão, onde temos policiais bandidos míticos lutando contra bandidos também míticos.
Riobaldo (Caio Blat, excelente como sempre) se apaixona pelo jagunço Diadorim (Luisa Arraes). Sufocado por sentimentos que não compreende, Riobaldo vai ficar cada vez mais confuso sobre que líderes apoiar: Hermógenes (Eduardo Sterblitch), Rodrigo Lombardi (Joca Ramiro), Zé Bebelo (Luis Miranda).
As lutas são muitas e redefinem as ações dos protagonistas. De início já sabemos que Riobaldo foi preso e é da cadeia que narra a história.
15 - “Armadilha” (2024) (“Trap”) (EUA) de M. Night Shyamalan
Um serial killer, Cooper (Josh Hartnett, excelente) leva a filha Riley (Ariel Donoghue) para um grande show de artista adolescente para adolescentes principalmente, feito por Lady Raven (Saleka Night, filha do diretor que compôs e dança e canta as músicas).
Cooper, vendo grande movimentação de carros do lado de fora, descobre que o show é uma armadilha preparada para prendê-lo. Assim ele terá que descobrir como escapar e ainda esconder da filha que é um serial killer procurado.
O filme é um típico Shyamalan com plots twists surpreendentes e com um quê hitchcockiano, pois sabemos desde o início quem é o serial killer. Resta sabermos, quando e como será preso. Mas será mesmo?
Temos a habitual aparição de Shyamalan, mas fazendo a história avançar, ao contrário das meras aparições de seu mestre Hitchcock.