quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre Criações e Predadores do Coração das Trevas / “mãe!” de Darren Aronofsky -Viagem à Monstruosidade Cotidiana




1- “mãe!” de Darren Aronofsky -Viagem à Monstruosidade Cotidiana
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Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. *
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“mãe!” ( 2017)  de Darren Aronofsky é um das daqueles filmes de pegar ou largar. Eu estou entre os que pegam.

O filme divide opiniões por onde passa, muitas extremadas, tanto de críticos como do público. Se bem que por volta de 67% das críticas já  analisadas pelo site Rotten Tomatoes**   mostram-se favoráveis, o que revela que o coro de vaias no Festival de Veneza não foi significativo. 
Via site Adoro Cinema *** temos críticas da imprensa nacional e internacional, com predominância de miradas bem positivas.

 Já a bilheteria no primeiro fim de semana nos EUA deixou bastante a desejar. Vejamos o que acontecerá no Brasil em sua carreira.

(Texto Continua em Mais Informações, Embaixo à Esquerda)   



terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Importante é Que A Nossa Emoção Sobreviva/ Nós Que Amávamos Tanto a Revolução


1- O  Importante é Que A Nossa Emoção Sobreviva

 “Ultimos Dias em Havana” (2016) de Fernando Pérez tem personagens bastante pujantes e pungentes. Mas tendo que destacar um apenas é sem dúvida Diego, num trabalho arrebatador de Jorge Martinez

Diego está em estágio avançado em direção à morte, sem volta, atingido pela Aids. Mas embora aqui e ali exale amargura, sempre procura ver o lado bom da vida que ainda lhe resta, reagindo com bastante bom humor e tentando insuflar vida ao amigo que dele cuida Miguel (Patricio Wood, em excelente composição), que mantém um ar sempre amuado, rosto crispado, esperando uma carta para dar ínicio a um processo de emigração para os EUA. 

Miguel tem um passado bastante misterioso. Não aparenta se gay como Diego, Passou por perseguições políticas? Chegou a ser preso? Nestas condições foi torturado? Ou é a consciência de como os ideais da Revoluçao foram reduzidos a pó? Ou não suporta mais a pobreza? Ou um pouco de tudo e/ou outras coisas mais? 

Miguel trabalha na cozinha de um restaurante e está sendo sempre advertido pelas desatenções. E isto não é apenas um dado periférico à narrativa como se verá mais tarde.  

Outros personagens bastante interessantes se agregam a este conflito básico que é a vida paralisada de Miguel vis a vis a vida frágil de Diego, que procura transcender esta sua circunstância, mesmo com a morte como algo bem próximo. 





A sobrinha de Diego, Yusisleydis (Gabriela Ramos, excelente), está grávida, não quer saber de estudos, foge da mãe e tem planos de viver com o namorado, e a despeito de um contrariado, amuado Miguel, acaba conseguindo um espaço na casa. 

Um dos grandes achados do filme é tornar Yusisleydis um personagem cada vez  mais forte, acabando por ser a consciência crítica de tudo que acontece. 

Diego antes de morrer, no seu aniversário não quer simplesmente o trivial e burocrático bolo que a tia lhe traz. Seu grande presente seria poder ver um homem nu, principalmente de forma frontal. Relutante de iníco, Miguel acaba por   frequentar o “bas fond” de Havana, onde encontra o michê negro P4 (Cristian Jesús Pérez, bastante carismático). P4 passa a ser um personagem com importância que não se suspeitava. 

Mas há um personagem bastante evidente e poderoso no filme que é a cidade Havana. A arquitetura e cores borradas das casas lado a lado da de Miguel/Diego são horrendas. Um autêntico cortiço. 
As ruas não são mais animadoras. Miguel pega um taxi durante uma forte chuva. Neste há mais três passageiros. Quando Miguel quer descer, um passageiro deve sair de seu lugar, mas há portas emperradas, o motorista tem de descer e vemos um plano geral deste carro, constatando seu estado lamentável. 

Aliás o trânsito e a arquitetura das casas já nos tinha sido mostrados  em toda sua decadência. Imaginemos a Lapa bem antes de sua revitalização (que tem idas e voltas). Este é o clima que a cidade nos passa. Pelo menos o que nos e motrado numa zona pobre. 

Mas o que resta forte mesmo é a grande solidariedade entre as pessoas, mesmo que o filme não escamoteie que, por exemplo, uma relação amorosa promissora possa terminar com um grande “barraco” aos olhos e ouvidos de todos. 

“Últimos Dias em Havana” e “Uma Mulher Fantástica” (2017) de Sebastián Lelio, em cartaz, tem fortes pontos em comum. Enquanto neste a transexual. Marina (Daniela Veja, excepcional) luta pelo direito de vivenciar o luto,   participar do velório e enterro do companheiro Orlando que morreu, sendo impedida ostensivamente pela família deste (até com atos de violência), ela apresenta um senso de dignidade irredutível, fantástico mesmo, assim como é a de Diego diante da vida/morte que o ronda e também num outro nível a determinação de Miguel de ir embora. 

Claro que este senso de dignidade perpassa outros personagens, de uma forma ou de outra, mas em “Últimos Dias em Havana” e “Uma Mulher Fantástica” é bastante superlativo e evidente, com seus protagonistas,

Comparece também em “Uma Mulher Fantástica” a força da solidariedade, mesmo que em grupo reduzido, para mitigar angústias. Simplesmente mostrar uma sucessão de desprezos tornaria os filmes maniqueísta. 

Para reforçar a universalidade da temática de “Uma Mulher Fantástica” nos vem à mente a peça “Tom na Fazenda” de Michel Marc Bouchard, espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro até dia 30, com muito sucesso, tendo sido indicado a 5 prêmios Shell. O texto foi transformado no belo filme homônimo (2013) de Xavier Dolan, jovem cineasta de tantos filmes memoráveis,premiados no Festival de Cannes, principalmente. 

Ainda que bem diversas em suas evoluções dramáticas, em “Tom na Fazenda” há a questão de se impedir alguém de viver o luto pela perda de um companheiro como quer e tem direito. Tom vai à fazenda da família do parceiro e é impedido com torturas psicológicas e até físicas pelo irmão do falecido, para que passe por um amigo e não como parceiro, a fim de que a mãe não saiba de forma alguma que o filho era homossexual. 
  
Em “Retorno à Ítaca” (2014) de Laurent Cantet (Palma de Ouro em Cannes em 2008 por “Entre os Muros da Escola”), temos um roteiro do próprio diretor junto ao escritor Leonardo Padura. Este chegou a um público mundial, com  enorme  prestígio de crítica com “O Homem Que Amava os Cachorros” (2009), onde uma história policial acaba envolvendo o assassinato de Trótski em agosto de 1940, a mando de Stálin, no seu exílio no México, pelo pau-mandado Ramón Mercader, comunista espanhol, que se valeu de uma picareta de alpinista. Assassino este que terminou seus dias em Havana. 

Estes fatos bastante comprometedores e até mesmo a existência de Trótski estavam proscritos dos livros e aulas de História em Cuba,  para que a “grande”, ”redentora e “exemplar” Revolução Russa de 1917 não tivesse sua imagem maculada e pudesse servir de exemplo,  integralmente, durante anos de lavagem cerebral, onde Fidel Castro chegava a fazer discursos, muitas vezes, de mais de 7 horas ( sic). 


Não por acaso, com seis livros publicados, bastante sucesso internacional, de  crítica e leitores, com já comentado, Padura é  praticamente invisível em Cuba hoje. E estamos em setembro de 2017 ! 
(Sua missão particular às vezes esbarra em planos coletivos. Em seus livros, artigos e entrevistas, Padura não omite as contradições do regime de Raúl Castro; em troca, o governo faz o que pode para atrapalhá-lo — o que, no caso de Cuba, é bastante. As editoras (todas estatais) evitam reimprimir suas obras; as universidades (todas públicas) o ignoram; a imprensa (100% oficial) não o procura.

— Em Cuba, sou invisível — resume.)


Em “Retorno à Ítaca”, amigos cinquentões/ sessentões se reúnem num terraço para uma pequena festa para dar boas vindas a um deles que voltou da Europa, depois de anos no exílio. Cada um vai mostrar o seu grande desecanto com a revolução cubana e seus ideiais traídos, desencaminhados. 

Assim temos a volta do filho pródigo (que revela um terrível segredo); o único que enriquece há anos contrabandeia produtos com estrangeiros que fazem turismo à parte, em áreas reservadas com seus dólares, o que enfatiza a grande hipocrisia dos governantes com mão de ferro; a mãe que ainda quer acreditar nas conquistas feitas, mas tem um filho que fugiu para Miami; o artista plástico que era bastante transgressivo, politizado, crítico ao regime, mas por perseguição política passa a viver de obras bem convencionais, acomodadas, sem força artística; o negro que foi lutar por ideal em Angola e decepcionou-se bastante ao ver colegas voltando com bens colhidos de forma ilícita e ainda tem um filho que escancara seu horror a Cuba  e a vontade de sair do país. 

Num clima teatral muito bem desenvolvido cinematograficamente, temos os personagens numa reunião num terraço. Mas o que se vê ao redor, em termos de moradias é melancólico pela sua degradação. 

“O Assassinato de Trotski” (1972 de Joseph Losey, filme ainda que tenha abordagem bastante distinta do romance, é um bom começo para se conectar com esta época em que o revolucionário proscrito ( Richard Burton) é assassinato por Ramón Mercador ( Alain Delon).    

Em “Numa Escola em Havana” (2015) de Ernesto Daranas temos uma situação mais dramática e cruel, onde solidariedade mesmo só existe entre uma professora negra, já um tanto idosa e jovem aluno problema, que diretora e professores desta escola decadente querem que seja enviado para algum instituo de correção. 

Inconformada a professora vai conhecer a vida do aluno (como todas em toda parte do mundo deveriam fazer.), descobrindo que ele cria cachorros para vender para sórdidas rinhas. Faz isto para sustentar a si e à mãe viciada em drogas.

Lembrando o quanto a religião de seus ancestrais tem sido maltratada (a santeria cubana, equivalente ao nosso candomblé, é praticad  clandestinamente), a professora defende com toda força a vontade de uma aluna de colocar num quadro na sala de aula, uma imagem que remete ao cristianimo. Isto vai selar seu destino. 

Por ocasião da morte de Fildel Castro, Renato Janine Ribeiro (professor aposentado de ética da Unicamp e ex-Ministro da Educação do governo Dilma ( ela simplesmente o descartou em meio a projetos, depois de 6 meses, para agradar setores do PMDB que a apoiassem) disse algo deste teor: “ Sim, Fidel matou e prendeu muita gente. Mas com o bloqueio comercial, se não fizesse isto, Cuba teria se transformado num Haiti (sic)”. Preciso comentar alguma coisa?  

Ps1 O título “O Imporante é Que a Nossa Emoção Sobreviva” vem de um clássico da MPB, dos anos de chumbo, gravado por Márcia, Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin.  

2-  Nós Que Amávamos Tanto a Revolução

 (O texto contém spoilers de alguns filmes)  

Não há diálogos, nem narração. Só música e uma combinação musical de imagens belíssimas, enquadramentos como que perfeitos numa montagem excelente, formando um filme de altas ressonâncias poéticas. Uma autêntica suíte mesmo. Não é a obra-prima de Godfrey Reggio que é "Koyaanisqatsi" (1982.) ´Trata-se de   "Suíte Havana" (2003) de Fernando Perez, diretor do já comentado “Últimos Dias em Havana”. 

“Suite Havana” é um filme muito bom, mas não é a obra-prima que que poderia ser. Por quê? Porque se a proposta de se construir uma suíte cinematográfica que se apoiasse em fragmentos do cotidiano de dez pessoas na Cuba contemporânea, não precisasse de "certas explicações" que vem ao final para entendermos melhor a vida destes habitantes da ilha, a estrutura poética e musical de imagens pretendida teria sido plenamente alcançada.

O final do filme é quase que uma confissão de suas limitações. Esta poderia ter sido dispensada, pois há na obra uma crueza com o poder inegável da captação da beleza daqueles rostos; daquelas paredes descascadas; daqueles olhares tristonhos; da melancolia que não ousa dizer sua dimensão; das pequenas epifanias das dez "estranhas formas de vidas" de uma Cuba que (ainda mais que o nosso mundo como um todo), vive uma forte ressaca pós-utópica, pois se apostou bastante ali, numa revolução socialista que fracassou. 

No desenrolar do filme, que se recusa a ser narrativo, de forma sutil, as informações, que no fim aparecem em bruto, poderiam até ter sido infiltradas de forma bem sutil. Não foram. Mas a experiência emocional resultante ainda merece bastante ser vivenciada.

"Buena Vista Social Club"(1999) é um doc célebre de Wim Wenders, de bastante sucesso, que acompanha o reencontro de velhos músicos cubanos que estavam no ostracismo, deste desprestígio, até uma consagração num show no cultuado Carnegie Hall de  Nova York. 

É um filme intencionalmente “pra cima”, com pessoas bastante idosas que sonham e muito (ao contrário de uma senhora vendedora de amendoins de “Suíte Havana” que já não sonha mais), mas já traz de uma forma indireta uma sutil (mesma que possa não ter sido intenção de Wenders) crítica às conseqüências do regime implantado por Fidel e fiéis seguidores, a ferro e fogo:  a decadência dos prédios, casas e construções de Cuba, desnudada pelas câmeras do cineasta é gritante. 

“Mamãe eu quero ir a Cuba e quero voltar” - diz um verso de uma das canções de Caetano Veloso. Nesta aparente inocência, há um elemento corrosivo. Sim, a revolução cubana foi um grande sonho para a América Latina, mas “nós que sonhávamos tanto com o sucesso da revolução cubana e de outras utopias” fomos atropelados definitivamente pelo realismo de John Lennon: o sonho acabou!

 Assim nos resta ir a Cuba, conhecer suas gentes, suas cores, seus humores, o mar batendo nas muralhas do Malecón, as suas belas praias, nossas afinidades culturais, a santeria  que é uma prática religiosa afro-cubana que tem similaridades com o nosso candomblé ( que é praticada de forma clandestina, lembremos) etc...Enfim, ir .....mas  voltar...

“Guantanamera” (1995) último filme do veterano Tomás Gutiérrez Alea (em parceria com Juan Carlos Tabio) já nos mostrava uma sociedade em derrisão, em que até uma senhora morta “penava” pela burocracia para ser transportada em seu caixão, o que deveria ser o mínimo de homenagem à vida que teve. 

Em “A Morte de Um Burocrata”(1966) do mesmo Tomás, este tema da dificuldade de se realizar um simples enterro ( onde a carteira de trabalho  que vai junto do burocrata em seus caixão, numa homenagem oficial, cria dificuldades para a viúva receber sua pensão) tem  também forte poder de sátira. 
O tom de humor negro destes filmes desaparece totalmente em “Antes do Anoitecer” (2001) de Julian Schnabel ( de “Basquiat”, “O Escafrando e a Borboleta” etc), uma angustiante saga real do escritor cubano homossexual Reinaldo Arenas (vivido magnificamente por Javier Barden, candidato ao Oscar de Melhor Ator por este papel), para escrever seus romances, divulgá-los mundo afora, fugir das prisões, evadir-se de Cuba até atingir Miami e Nova York. 

Insatisfeito com estas duas grandes cidades, é em Nova York que contrai o vírus da AIDS, enquanto leva uma vida desencantada de porteiro de edifício, morrendo num gesto rápido e generoso de eutanásia proporcionado por um amigo, algo que nos choca e muito, ao contrário de “Mar Adentro” (2005.) de Alejandro Almenábar, com o mesmo Javier, em que o tema é abordado de forma progressiva, poética, humana e bastante reflexiva.

“Antes do Anoitecer” ainda doura a pílula quando confrontado com o livro autobiográfico “Antes que Anoiteça” de Reinaldo Arenas e seus inúmeros detalhes, aqueles onde o diabo mora. 

Reinaldo, em Cuba, tinha de escrever suas obras, escondido em jardins públicos antes que anoitecesse e antes que sua vida “anoitecesse” de vez, queria angustiadamente terminar sua inacreditável autobiografia, onde nos conta o quanto suas desilusões com Cuba e as dificuldades abissais de fugir do páis o levaram a um homoerotismo desenfreado, com muitos homens, como sublimação. Uma forma de instilar bastante vitalidade, aonde ela lhe era negada.    

Neste trabalho derradeiro de Arenas, até mesmo a imagem de Gabriel Garcia Márquez, grande amigo de Fidel, por suas abomináveis omissões, sai bastante chamuscada, o que levou o crítico literário José Castelo a escrever no jornal O Estado de São Paulo, que não deixaria de gostar do trabalho literário do grande escritor prêmio Nobel, mas enquanto pessoa nunca mais conseguiria encará-lo como antes. 

“Morango e Chocolate” (1994) de Tomás Gutiérrez Alea (co-dirigido por Juan Carlos Tabio) é um precioso jogo de aprendizados mútuos entre um jovem empolgado com os ideais revolucionários e um homossexual perseguido, afetado e bastante culto, um personagem vivido com grande carisma por Jorge Perugorria, num dos seus melhores trabalho no cinema, aquele que  impulsionou sua carreira. Atualmente trabalhou como o detetive Mário Conde na série “ Quatro Estações de Havana” roteirizada por Leonardo Padura e sua mulher, distrubuída pela Netflix. 

“Morango e Chocolate” é um filme cativante e emocionante, do começo ao fim.  Mas quando comparado com a barra pesada de “Antes do Anoitecer” (ainda que este tenha suas fortes insuficiências como o emprego de inglês e espanhol na narrativa sem muita habilidade), é um conto de fadas, remetendo mesmo ao nome da novela que o inspirou que é “O Bosque, o Lobo e o Homem Novo” de Senal Paz. 

Mas por um destes paradoxos da criação artística, ainda assim, a obra de Tomás/Juan em seu conjunto resulta enquanto cinema, muito mais atraente, tocante e bem resolvida do que o trabalho de Schnabel.  O deste chega a ser um tanto frio demais.   

“Suíte Havana” é mais uma pedra lançada na construção da catedral de perplexidades e ilusões perdidas que os descaminhos da revolução cubana desencadearam. 

Mas para quem se sentir nostálgico do estilo de governo de Fulgêncio Batista e antecedentes, que Fidel, Che Guevara e companheiros desestabilizaram e implodiram, uma simples visita aos clássicos  “Soy Cuba” ( 1964) de Mikhail Kalatozov ou a celebração da liberdade de “A Última Ceia” ( 1976) do notável e já citado Tomás Gutiérrez Alea ( onde senhores de escravos mostram o poder que tem de forma bem cínica, chamando escravos para um ceia,  mas provoca uma grande revolta, pois estes sentem um gostinho de liberdade), enfim só estes filmes  o fará ficar bastante perplexo. 

“A Última Ceia” pode ser tido  tanto como uma alegoria sobre o autoritarimo do governo ditatorial de Fulgêncio Batista, como também do mais do mesmo com  Fidel, em ideologia de sinais trocados.
  
Uma visão atenta de “Diários de Motocicleta” (2004) de Walter Salles também nos é muito útil para estarrecer estados anestésicos: a América Latina que o jovem Che se esforça por conhecer nos anos 50 ainda mostra, a rigor, a mesma cara de tantas misérias e pobrezas no novo milênio, quando o filme é feito, percorrendo-se a mesma trajetória de anos atrás.  Condições sociais abjetas, grandes concentrações de renda, que sucessivos governos ditatoriais, populistas, e corruptos estiveram longe de resolver e nem tampouco mitigar. 

Em “Che” (2009) de Steven Soderberg, uma senhora se aproxima de Che, médico argentino, na Sierra Maestra, onde este atendia as pessoas. Ela declara não estar ali por um problema de saúde, mas sim porque nunca tinha visto um médico na vida.
  
Em “O Poderoso Chefão 2” (1974) de Francis Ford Coppola, Michael Corleone como empresário “honestíssimo”, trata de negócios com Fulgêncio Batista, mas com os revolucionários chegando a  Havana, trata logo de fugir da ilha. 

Escritores homossexuais como Reinaldo Arenas e Gabriel Cabrera Infante apoiaram a revolução. Mas quando perceberam que se intalava uma nova grande ditadura, agora de “esquerda”, Gabriel conseguiu fugir para a Europa. Mas Reinaldo não. Assim este sofre as grandes provações já comentadas.  

Um filme incontornável para o bem ou mal para se entender ideiais da Cuba pós-revolucionária é o clássico “Memórias do Subdesenvolvimento” (1968) de Tomás Gutiérrez Alea, onde acompanhamos memórias e contradições de um burguês que fica sozinho em Cuba, enquanto família e amigos vão para Miami. Ele corre o risco de ficar num limbo, num não lugar, sem fuga nem adesão. 

PS1. O título que dei ao texto tomei emprestado de Fernando Gabeira numa obra onde conversa com Daniel Cohn-Bendit, lançado pela Rocco em 1985, que já é uma variação de uma das obras-primas de Ettore Scola que é “Nós Que Nos Amávamos Tanto”. Mas ele é essencial para sintetizar o sentimento geral do texto. Aos dois então, desculpas pelo plágio....

PS2- Alguns filmes, principalmente “Retorno a Ítaca”, nos remetem ao espírito dos dois capítulos. 

PS3- O texto desta parte, aqui revisto, foi originariamente publicado no Jornal Eletrônico Montblaat dirigido pelo saudoso jornalista Fritz Utzeri. 

3- Links associados

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-239390/- “Últimos Dias em Havana”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-245149/- “Uma Mulher Fantástica” – Sinopse e Trailer  

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-208989/- “Tom na Fazenda”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-221566/- “Retorno a Ítaca”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-2440/- “O Assassinato de Trótski”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-230941/ - “Numa Escola em Havana”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-33233/- “Koyaanisqatsi” – Sinopse e Trailer  

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-54120/  - “Suite Havana” – Sinopse 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-8270/ - “Buena Vista Social Clube” – Sinopse e Trailer


 - Inácio Araujo – “A Morte de Um Burocrata”

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-28622/- “Antes do Anoitecer”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-53097/ - “Mar Adentro”- Sinopse e Trailer  

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-79843/- “Morango e Chocolate” – Sinopse 




http://www.adorocinema.com/filmes/filme-33464/- “Diários de Motocicleta”- Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-53619/- “Che” – Sinopse e Trailer 

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-28201/ - “O Poderoso Chefão 2” – Sinopse e Trailer 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Memorias_del_subdesarrollo - Sobre “Memórias do Subdesenvolvimento” 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Movimentos dos Corpos Ainda Podem Ser Políticos com “pê” Maiúsculo?



1- “Corpo Elétrico” (2017) de Marcelo Caetano, seus reflexos, suas faíscas.  
  
“Corpo Elétrico” é, sem dúvida, um filme agradável de se assistir. Um corpo realmente bem diferente do que comumente se vê no Cinema brasileiro ou Internacional. Daí já é um ponto de grande atrativo para se ir ao Cinema.  

( Continuar por Mais Informações à Esquerda, Mais Abaixo)  


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

“O Filme da Minha Vida”- Um Bálsamo Primoroso Para Nossos Tempos Sombrios

1- “O Filme da Minha Vida”, a Importância de se Rever Filmes e Outras Questões Críticas ( Ver texto completo através de Mais Informações à esquerda). 
    

domingo, 6 de agosto de 2017

Modesto Tributo à Grandeza de Luiz Melodia


I – Passeando por Letras, Melodias, Cantos e Encantos

Luiz Melodia é um dos grandes artistas da MPB, não tenho dúvida e muitos também. Gosto de manter o tempo presente nestas condições, pois a obra de pessoas assim estão sempre nos interessando, instigando etc e ao nosso alcance, senão em formato físico (algo do qual não abro mão) ou em plataformas como o Youtube.  ( Continua em Mais Informações à esquerda)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O Divino Drama Humano: François Truffaut / Cinco Filmes de Antoine Doinel


Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo                                       
Hoje beija, 
Amanhã não beija,                                                     
Depois de amanhã é domingo
E segunda-feira ninguém sabe o que será"                                                        
Carlos Drummond de Andrade         

Prezado leitor,
O texto contém vários spoilers, ou seja, detalhes fundamentais são revelados, para a análise pretendida.

Numa era tão árida no Brasil e no mundo, visitar ou revisitar a obra de François Truffaut e sua vida, seus grandes percalços e sucessos, nos soa como um autêntico bálsamo. Ainda mais sendo alguém que exalava certa pureza de alma, no melhor sentido que esta palavra tem. Nada de moralismo aqui.
(Continuar lendo o texto conforme indicação abaixo e à esquerda). 



domingo, 2 de julho de 2017

"Frantz" e "O Planeta Ozon"


François Ozon não é um gênio do Cinema. Mas está dentre os cineastas contemporâneos muito bons que tem uma carreira bastante prolífica, englobando curtas e longas metragens, experimentando diversos gêneros e estéticas, sem deixar de ter uma marca bem autoral.


Tendo como  principais temas as intermitências e trocas de identidade ( muitas vezes surgindo máscaras poderosas);  metamorfoses dos seres humanos conforme situações inesperadas; os poderes inconscientes e conscientes das (homo) sexualidades em suas diferentes facetas e situações; a imprevisibilidade dos acontecimentos da vida etc.

Ozon assim como Hitchcock, Polanski, Cronenberg, Lars Von Triers, Buñuel , Almodóvar etc,  é um cineasta bastante lúdico e perverso, mas no sentido bastante transgressivo e positivo que esta palavra  perverso também tem.  

A primeira vez que soube que François Ozon existia, enquanto cineasta prestigiado, foi em 1998 em Chelsea, então bairro gay de Manhattan em Nova York, onde estava hospedado, fascinado com a ausência de repressões, com casais de gays andando de mãos dadas, trocando beijos e com pubs com decoração homoerótica que abriam bem cedo etc. 

Por várias paredes do bairro cartazes simples nos convidavam a assistir “See The Sea” ( “Regarde La Mer”) ( 1997) de Ozon que uma crítica bem sintética sinalizava que remeteria a “Persona”, um dos pilares da obra de Ingmar Bergman. Seria uma heresia esta ilação, mesmo guardadas as devidas proporções?

Claro que não poderia perder o filme, perto de onde estava, no Quad Cinema de Chelsea, exibido numa das salas.

Apesar de ter prometido a mim mesmo que assistir filmes em Nova York seria uma das últimas atividades que faria ( já me envolvia em maratonas no Rio de Janeiro), com tantas novidades por conhecer nas ruas e avenidas,  museus, centros culturais, arquiteturas, musicais da Broadway etc, não resisti e fui assistir o filme do “tal Ozon”.

Em “See The Sea”, Sasha ( Sasha Hails) é uma mulher, com um bebê que é bastante solitária, pois seu marido ( Nicolas Breviére)  está sempre trabalhando fora , deixando-os numa casa de praia.
Tatiana ( Marina de Van), uma jovem bastante descolada, onde se destacam piercings e roupas nada convencionais, além da linguagem como se expressa, pede para acampar no terreno da casa, com sua barraca e Sasha consente.

Uma amizade se desenvolve, mas Tatiana passa a invejar a vida burguesa da anfitriã, enquanto Sasha anseia por ter a liberdade que Tatiana apresenta na vida, se movendo para onde quer e talvez tendo em sua solidão uma atração homoerótica por esta mulher tão diferente de si.

Mas uma pequena e significava atitude escatológica de Tatiana já vai sinalizar que esta amizade está eivada de falsidades, com acontecimentos estranhos em progressão. Tudo vai evoluindo até desembocar numa tragédia, num dos desfechos de filme mais cruéis que já assisti. 

Este tema da dominação paulatina que vai sendo praticada por alguém de “‘classe inferior”, em relação a um de “classe superior”, ocorre também no clássico “O Criado” ( 1963) de Joseph Losey, baseado em roteiro de Harold Pinter, mas com consequências diversas. 

Mas aonde entra “Persona” então? Na troca de identidades que ocorre entre as mulheres, onde Tatiana passa a ser a dominadora de uma mulher fragilizada, dona de uma casa que não é sua, formando também uma região de sombra onde estas personalidades se confundem.

Ocorre enfim algo análogo ao clássico de Bergman ( infinitamente superior, é óbvio, pois aqui temos um gênio do Cinema), onde a enfermeira Alma( Bibi Anderson), numa casa de campo, passa a realizar uma espécie de terapia, trazendo um forte trauma à tona,  ligado à sexualidade e outros temas, diante de quem deveria estar cuidando, a atriz Elizabeth ( Liv Ullmann) que perdeu a voz em uma montagem de “Electra” e tem esta deficiência há meses.

Mas Elizabeth mostra com o tempo, mesmo sendo alguém que tese seria quem estava ali fragilizada, que ouve tudo, mas passando ao desdém, o que vai deixar a enfermeira Alma arrependida das confissões que fez. As sombras que confundem estas personalidades também comparecem e está simbolizada num plano icônico, onde metade de um rosto vem de Alma, a outra de Elizabeth.

“See The Sea” com situações psicológicas anímicas complexas e clima crescente de suspense, me fisgou para sempre para o Cinema de François Ozon.

Nunca exibido no Brasil e ao que eu saiba nem existe em DVD, trata-se de uma obra singular que merece chegar ao espectador brasileiro, pois já tem fortes componentes do que viria no Cinema de Ozon depois, reiterando elementos  já escritos: confusão e/ou fusão de identidades; situações perversas e dificuldades em lidar com isto; o gosto pelo suspense; o homoerotismo velado;  desconcertantes imprevisibilidades nos conduzindo a desfechos que podem até ser poéticos, mas são desconcertantes.

São elementos que surgem também em “Frantz” ( 2016) em cartaz,  onde temos um primor de classicismo ( que não deve ser confundido com academicismo); um melodrama nobre, como os de Douglas Sirk, o papa do gênero, que influenciou bastante Fassbinder, Almodóvar e parte da obra de Todd Haynes ( não experimental); situações propriamente dramáticas, um clima agridoce ou até mesmo um mistura de tendências quase que indissociáveis e até mesmo um possível caso de homoerotismo velado ou até explicito, de acordo com um jogo que o diretor faz com a mente dos diferentes espectadores.

Depois de um panorama de obras de Ozon, nos concentraremos em “Frantz”. 

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Em “Sitcom-Nossa Linda Família” ( 1998), um filme de inspiração buñuelesca, o pai ( François Mar Thouret) de uma família de classe média traz um rato para casa. Isto vai desencadear bizarras atitudes que deviam estar submersas na mente dos personagens.
A filha Sophie ( Marina De Van) manifesta tendências suicidas e inclinações ao sadomasoquismo que procura colocar em prática. O filho Nicolas ( Adrien Van)  revela sua homossexualidade, a empregada doméstica Maria ( Lucia Sanchez) não controla mais seus desejos sexuais etc. A mãe ( Evelyne Dandry)  tenta trazer todos ao que seria ser sua normalidade.

Afinal onde repousa as verdadeiras identidades? Antes dos efeitos do rato ou depois? Adianta se livrar do rato “anjo exterminador”?
Aqui temos um Ozon sem muitas sutilezas. As suas intenções ficam bem claras. Mas esta comédia de situação, com direito até a cortinas para realçar a teatralidade, tem seus encantos e um poder hipnótico. Será que nós espectadores seremos também transformados por este bichinho? 

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“Gotas D’água em Pedras Escaldantes” ( 2000)  é uma adaptação de uma peça de Rainer Werner Fassbinder, onde um homem de negócios, Léopold  ( Bernard Giraudeau) aos 50 anos seduz o jovem Franz ( Malik Zide) em seus 19 anos.
Os dois passam a viver juntos, mas com o tempo esta relação começa a se deteriorar.
Aqui as pressões que homossexuais sofrem vem de relações íntimas, onde o se amor existia mesmo ( ou só atração sexual) acaba fenecendo, estabelecendo -se um jogo de poder, onde alguém passa a dar as cartas. Não são pressões externas de homofobias sociais que estão em jogo. 

Fassbinder tem um filme também nesta chave que é “O Direito do Mais Forte” ( 1965). Aqui um pobretão ( Fassbinder mesmo) ganha uma boa quantia num jogo. Mas seu namorado de classe média, acaba ludibriando-o, deixando-o sem nada.
Aqui não está em jogo homofobia, mas a emblemática ganância dos homens que não tem limites.

A sequência final é atordoante. O corpo do gay lesado pelo suposto “amado” está caído numa estação. Num plano fixo longo, vemos crianças e jovens que passam  e verificam o que pode haver de valor nos bolsos,  nos dando conta da visão amarga de mundo do autor Fassbinder.

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Em “Sob a Areia” ( 2001) Ozon realiza um dos seus dramas mais fortes, sem nenhum  resquício de humor.
Marie(Charlotte Rampling, num dos grande desempenhos de sua carreira) faz 25 anos de um casamento harmônico com Jean ( Bruno Cremer) e decidem passar uma temporada numa praia no sul da França.

Enquanto Marie toma banho de sol, o marido vai nadar. Mas desaparece. E assim por mais que apresentem evidências (como um relógio que pertenceria ao marido), Marie se recusa a entrar num processo de luto, não reconhece nada como pertencendo ao marido, negando todo o tempo que ele tenha se afogado.

Tudo se passa como se Marie, antes tão determinada e lúcida se transmutasse em alguém com posturas opostas. Mesmo voltando a Paris, dando aulas e com novo companheiro, sua vida não se normaliza, pois ela ainda não aceita que o companheiro de anos tenha morrido.

Ozon, mesmo numa chave bastante distinta de outros filmes seus, também nos apresenta situação bastante  insólita, algo bem caro à sua filmografia. 

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Depois de um drama pesado, “Sob a Areia”, Ozon procurou trabalhar a comédia em toda força enquanto gênero, mas acrescentado também elementos de policial e suspense.
“8 Mulheres” (2002), baseado numa peça teatral de bastante sucesso, reúne um elenco excepcional, com atrizes de várias gerações.

Num casarão, Marcel (Dominique Lamure) é assassinado, quando várias mulheres estavam reunidas. Elas tem certeza que foi uma delas a assassina a ser descoberta, surgindo diálogos cínicos, fortes, compungidos etc. Enfim, uma gama de sentimentos explode, criando até momentos de pura histeria.

São elas: a mais velha Mamy ( o mito do cinema francês Daniele Darrieux); a mais nova Catherine ( Ludvine Sagnier, já mostrando-se  bem talentosa e promissora, mas hoje só chegando ao Brasil, praticamente, seus trabalhos com Christophe Honoré); Gaby ( Catherine Deneuve) ; Agustine ( Isabelle Huppert); Louise ( Emmanuele Béart); Pierrette ( Fany Ardant);Suzan( ( Virginie Ledoyen);  Madame Chanel ( Fimine Richard).

Com os jogos e embates inesperados destas grandes atrizes, num ambiente bastante claustrofóbico, há cuidados para tornar o filme algo que não seja simplesmente um material teatral filmado.
Para isto colaboram bastante as falas que só se concentram no rosto das atrizes ou em tête-à-tête e movimentos internos no casarão.

Quem não conhece as circunstâncias do assassinato terá mais prazer ver o filme, diante de tantos meandros, pistas falsas etc. Mas os que já conhecem terão o grande prazer de acompanhar tantas grandes atrizes contracenando, ora procurando estar calmas, ora caindo na histeria.

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“Swimming Pool- À Beira da Piscina" ( 2003) é obra que tem pontos de contato com “See The Sea”, já comentado.  
Sarah ( Charlotte Rampling) é uma escritora de romances policiais  de prestígio junto à crítica e ao público. Seu editor lhe empresta uma casa de campo para ter bastante tranquilidade para escrever nova obra. Mas surge a filha do editor, Julie ( Ludvine Sagnier)  para nadar na piscina e tomar sol com seu biquíni bastante sensual. .
Este encontro vai perturbar o sossego que Sarah precisa para trabalhar, numa situação onde pode haver vampirização do outro, jogos de sedução, atração homoerótica mútua ou unilateral, inveja da juventude (caindo em si de como o tempo passa inexoravelmente) etc. Ou então todos estes componentes juntos ou em algumas combinações.

Claro que Ozon não fecha sua obra. Quer que o espectador seja quem tente montar este quebra-cabeças emocionalmente desestabilizador, se é que isto é possível. 

Como em “See The Sea”, uma mulher madura com suas fragilidades acaba sendo desestabilizada por alguém bem mais jovem ,com atitudes na vida bem diversas.  

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“O Amor em Cinco Tempos” ( 2004), pleno de ambiguidades, mostra Ozon numa seara que gosta muito de transitar. Aqui pode-se fazer até uma aproximação com filmes do mestre Eric Rommer, onde personagens falam falam falam..., mas o que dizem não expressam o que realmente sentem. Não que queiram o escamoteamento deliberado, mas é que as forças do inconsciente são mais potentes.

O casamento formado por Marion (Valeria Bruni Tedeschi)  e Gilles ( Stéphane Fress) vai entrando  num processo de deterioração, chegando ao divórcio, num primeiro tempo. Em outros quatro, em sentido contrário na linha do tempo de suas vidas, vemos os antecedentes desta relação, suas crises, suas conversas com amigos, até culminar com o primeiro encontro travado numa viagem à Itália.

Nesta trajetória surge até a possibilidade Gilles ser homossexual, algo que fica apenas na sugestão e na cabeça dos espectadores. 
Mas uma vez importa a um filme o como as coisas acontecem, os diálogos ou monólogos interiores de personagens e as revelações que se apresentam nesta “marcha a ré” narrativa.

Vários filmes exploram esta estrutura básica, mas com resultados e estéticas bem diversos tanto de “O Amor em 5 Tempos”, como entre si. Lembremos de alguns deles: “Amnésia” de Cristopher Nolan”; “Irreversível” e de certa forma “Love” de Gaspar Noé; “Besache Mucho” de Francisco Ramalho Júnior,   baseado em peça de Mário Prata de bastante sucesso;  “Namorados Para Sempre” de Derek Gianfrance.

Na vida do casal de “O Amor em 5 Tempos” não chega a haver praticamente traumas, mas há elementos que corroem a vida dele como o diabo que mora nos detalhes.    
  
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“O Tempo Que Resta” ( 2005)  nos mostra um jovem fotógrafo homossexual, Roman (Melvil Poupad)  em câncer terminal. Assim a questão do título se impõe. Como trabalhar as memórias de acontecimentos bons? Como dar conta do presente? “O que poderá ser realizado ainda? Que (re) encontros pode-se promover? etc etc.

Haverá sempre quem diga que o fato de Roman ser homossexual não importa. Mas claro que sim. Ele não tem uma família burguesa típica por deixar, por se despedir etc. Seus caminhos urgentes não passam por aí.

Em “É Apenas o Fim do Mundo” ( 2016 ) de Xavier Dolan  ( Atenção Spoilers- Acompanhar parênteses do início ao fim)  ( o protagonista Louis ( Gaspard Ulliel), um escritor gay, com uns 30 anos, está com uma doença incurável ( Atenção Spoilers) e  vai procurar a  família que vive longe da cidade e que não vê há dez anos.

Mas os problemas de cada um são tantos, o irmão Antoine ( Vincent Cassel ) é  tão desagradável e machista, que o fazem  ir embora sem reconciliação alguma, só tendo a cunhada  Catherine (Marion Cotillard , mais uma vez soberba), que só passou a conhecer nesta volta, como alguém que intuiu tudo o que está acontecendo com ele. Ao final ela recebe um sinal de psiu para ficar calada.

Vivenciando bem que, apesar de querer muito contar a todos como estava e construir doravante algo pacífico, conciliador (mesmo que fosse efêmero), esta família desestruturada não poderia receber este baque, principalmente a mãe que tanto pode ser bastante realista com viver em fantasias. Ainda mais sendo pressionado pelo irmão a voltar para a cidade, inventando um compromisso que o outro não tem. )

Roman em “O Tempo Que Resta” não apresenta esta angústia toda de Louis de “É Apenas o Fim do Mundo”, Vivencia melhor o tempo que lhe resta, indo encontrar na avó Laura ( Jeanne Moreau) o colo de que precisava.

 “O Tempo Que Resta” é o filme mais grave de Ozon que chegou até nós em 2005. Ele não escamoteia a dor de Roman até a morte, não a glamourosa, mas mostra tudo como sendo natural e suave, extraindo poesia, nesta despedida da vida.

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“Angel” ( 2007) , primeiro filme falado em inglês de Ozon, tem uma bela e colorida evocação de época, mas assumidamente tem um tom de folhetim melodramático, o que pode contribuir  para ser a obra menos  prestigiada do autor. O que acho bastante injusto pois Ozon aqui, como Baz Luhrmann em seus filmes (“Moulin Rouge”, “O Grande Gatsby”; “Romeu + Julieta”, “Austrália” etc) não perde a mão de forma algum. Se há exageros é porque assim quis, por uma questão de estilo e estética adequados ao que nos quer vivenciar.   

Angel ( Romola Garai)  é uma mulher pobre, que gosta de romances policiais bem populares. Escreve um e com ajuda do editor Theo (Sam Neill) faz bastante sucesso, ganhando muito dinheiro e  realiza um sonho para exorcizar a pobreza: compra uma mansão, que chama de Paraiso. Mas não consegue sair de seu mundo idealizado, refletido em sua obra e encarar a realidade.
Angel se apaixona pelo pintor Esmé ( Michael Fassbender, no início da carreira, num registro bastante diverso de outros personagens que fez depois). Mas a chegada da guerra vai tornar imperioso que ela saia de sua redoma protetora dos males do mundo.

“Angel” homenageia obviamente “E o Vento Levou....” de Victor Fleming. Voluntariosa, egocêntrica, Angel nos lembra Scarlett O'Hara, assim como Paraiso remete a Tara, a propriedade que a heroína deste grande clássico de Hollywood tanto defende.
Mas tudo fica só homenageado num plano simbólico.

 Claro que Ozon não quer concorrer com “E o Vento Levou...” Há quem diga que seu filme é kitsch, o que não deixa de fazer sentido. Mas dentro de uma proposta cinematográfica de experimentar diferentes gêneros, como já comentando antes, Ozon faz o que persegue. Não erra o tom.

Tudo se passa como se como se seu ar fake, o filme tenha o tom popular dos romances de Angel, num jogo de espelhamento.  
A questão de identidade também comparece no filme com força. Angel criou uma máscara para si, que vai ser difícil tirá-la para saber quem realmente é.

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“Ricky” ( 2008) tem um ponto de partida bastante singular. Um casal de trabalhadores formado por Katie (  Alexandra Lamy), que já tem uma filha e  Paco ( Sergi Lopez) tem um filho, que passa a ser Ricky ( Arthur Peyret), que simplesmente tem o dom de voar.

O que pode ser lúdico, poético, uma bela fantasia real num primeiro momento, acaba por trazer vários problemas. E Katie vai ter de desconstruir o papel de mãe em família tida como institucional, ainda mais na classe social a que pertence.

Ou seja, nova identidade dever ser buscada. Uma perda bastante especial deve ser bastante cuidada. Se desapegar de coisas materiais já pode ser algo difícil. Imaginem se desapegar de um filho.

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“O Refúgio” (2009) traz situações incomuns sem ter nada de bizarro e é desprovido de humor. Sim, Ozon também trabalha nesta chave como vimos nos soberbo “Sob a Areia” e “O Tempo Que Resta” e “See The Sea”.

 Mousse ( Isabelle Carné) e seu namorado Louis ( Melvim Poupadi ) são viciados em drogas. Ele entre em coma, morre e ela descobre-se grávida. Para fugir dos que querem controlar a sua vida,  Mousse refugia-se numa casa de praia. Pouco tempo depois surge Paul ( Louis-Roman Coisy), irmão do falecido Louis  e os dois passam a ter uma relação amorosa.

Mas em que medida Mousse ama realmente Paul ou está consciente ou inconscientemente elaborando uma projeção, no intuito de “trazer à vida” o namorado morto e ter um pai para seu filho?

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“Potiche-Esposa Troféu” ( 2010 ) nos traz Ozon de volta à comédia, mais um dos gêneros em que ele transita muito bem.
Robert ( Fabrice Luchini) trata sua família com bastante tirania,  tanto como  seus empregados na fábrica que tem. Mas eclodindo uma greve e ele sendo sequestrado, sua esposa Suzanne ( Catherine Deneuve) passa de mulher objeto humilhada ao controle da fábrica, logo se transformado numa grande gerente, tratando bem a todos, algo que nem seus filhos, ela mesmo e seu marido não acreditariam que fosse capaz.

Mas se Rober voltar e se deparar com a mulher muito bem no cargo que era seu?

Mais uma vez um personagem de Ozon apresenta nova persona,    troca de  identidade, metamorfosear-se. Depois de saber o quanto é empreendedora, Suzanne vai querer voltar a ser um troféu do 
marido? Claro que não. Mas e o impasse criado, para onde vai?

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Em “Dentro da Casa” ( 2012) temos um dos filmes singulares, inusitados, da carreira de Ozon ( e um dos melhores).

Um professor de Literatura, Germaine ( Fabrice Luchini ), está completamente desgostoso com o que considera a mediocridade dos seus alunos. Ao descobrir uma grande exceção em Claude ( Ernst Umhauer) o incentiva a escrever bastante, para ter uma obra bem pessoal.

Mas o professor não sabe que Claude entra clandestinamente na casa de um colega e escondido com tudo o que ouve e/ou vê transforma em matéria prima para seus escritos.

Vários perguntas já podem inquietar quem me lê. Quando e como Claude será descoberto, se é isto que vai acontecer? O que acontecerá com todos os implicados? Um excelente livro será escrito? Afinal, temos um filme realista ou com tons fantásticos, desafiando nossa suspensão da descrença? Etc 

Note-se que mais uma vez surge a questão da identidade. Ao adentrar a casa, tudo se passa como se além da busca da fonte para suas ideias de escrita, solitário, há o desejo de ser outro, mesmo desta forma que seja,  pertencendo  à esta família ou integralmente numa pura fantasia mesmo. 

*****************************************************”Jovem e Bela” (  2013) é o “A Bela da Tarde” de Luis Buñuel,de Ozon, guardadas as devidas proporções, pois o espanhol  é um dos grandes gênios da História do Cinema. Mas isto não impede que haja pontos de contato. 
 
Isabelle ( Marine Vatch) perde sua virgindade com um jovem alemão, numa viagem de verão com os pais e um irmão menor. A partir daí sua curiosidade e obsessão pela sexualidade é tal que a faz tornar-se uma prostituta por prazer, sem que precise de dinheiro pois pertence ao seio de uma família de classe média padrão.
Mas quando passa a receber dinheiro em sua identidade   clandestina, mais prazer sente, pois está  sendo uma prostituta como as outras, sentindo que seus dotes físicos, seus apelos e atitudes sexuais estão sendo valorizados.

Um dos clientes mais assíduos de Lea (  nome que ela agora emprega)  é um velho senhor, George ( Johan Leysen). Ele morre infartado no leito e a curva dramática do filme sofre forte inflexão.
Uma das sequências mais belas e tocantes se dá quando Vero ( Nathalie Richard), viúva de George, procura Lea, não para recriminá-la, mas para saber como foram os últimos dias do marido. O grande contraste físico e social entre as duas, mas irmanadas sem ciúmes, se referindo ao mesmo homem, é algo a se reter.

Isabelle/Lea sabe que o casamento de seus pais não anda bem. Tem ciência que sua mãe Sylvie ( Géraldine Pailha ) tem um caso-extraconjugal com o negro Peter ( Djedje Apali,) que junto com a esposa são amigos da família de Isabelle; o único apoio que encontra na família vem do pequeno irmão Victor ( Fantin Ravat) .
Mas estes elementos estão longe de explicar o desajuste de   Isabelle em relação ao dito “mundo normal”.

Tudo representa uma fase de descobertas na sua vida ou Isabelle voltará para a atividade vivenciada que mais prazer lhe deu? A perversidade de Ozon se instala com mais força quando ele instiga a nós espectadores, a vontade de ver Lea voltar a se prostituir mesmo.  

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Uma Nova Amiga” (2014) abre com um enterro solene, com pompa e circunstância. Quem morreu foi a melhor amiga de Claire ( Anaïs Demoustie ).

A falecida, já sabendo do seu destino, pediu a Claire que cuidasse do viúvo David ( Romain Duris) . Claire é casada com Gilles (  Raphaël Personnaz ) e este casamento fica cada vez mais em xeque, enquanto Claire se aproxima cada vez mais de David, extrapolando o que seriam meros cuidados.  

( Atenção Spoilers até o fim deste texto sobre “Uma Nova Amiga”)
Claire descobre que David é um cross-dresser, sem dúvida heterossexual, mas que tem o fetiche, desejo e prazer de se vestir com roupas bem femininas. Mas mesmo assim ela acaba se apaixonando por ele. Passando de certo modo a ser dominada, vai até com David a lojas para comprar vestidos.

Uma grande cirando de projeções pode estar acontecendo sobre a qual não temos nenhuma certeza e os personagens também não. Claire e Laura ( Isild Le Besco ) que morreu  tinham uma atração lésbica e agora ao transar com David como mulher, tudo se passa como se Claire  estivesse  com Laura? Afinal David é uma porção de vida que ficou.

Para tudo isto corrobora o fato de Claire passar a ter repulsa mesmo pela vida de cross-dresser de David, justamente quando enxerga com toda clareza o pau que ele tem, uma visão que ela escamoteava nas relações sexuais. Vigorava o clássico “o que os olhos são veem, o coração não sente”.   

Claro que várias outras interpretações podem surgir. Mas fico só com esta para não me estender mais e o leitor enfim vai me ler sobre “Frantz”.

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No Rio de Janeiro ”Frantz”, em sua segunda semana, está agora sendo exibido em uma única sala e horário no Espaço Itaú de Cinema-Botafogo, uma bem mais à altura da beleza do filme e sua esplêndida fotografia em especial. Em outras salas está sendo exibido no Estação Net Ipanema e no Estação Net Rio.

 “Frantz” ( 2016) soa como o melhor trabalho de Ozon,  obra de maturidade, com classicismo assumido, uma extraordinária direção de fotografia ( premiada com o Cesar 2017) onde  sobressai o preto e branco na maior parte das sequências ( o diretor pediu a todos os envolvidos no projeto, que assistissem “A Fita Branca” de Michael Haneke para visão deste e de outros elementos). Mas há lindos momentos coloridos em situações de estado de espírito especiais.

“Frantz” se passa depois do fim da primeira guerra mundial, num período entre guerras, quando longe do nazismo uma obra pacifista ganha mais sentido nas relativizações possíveis.

O filme refere-se tanto a mortes de jovens alemães como de franceses, sendo em muitos casos pessoas enviadas à guerra por conclamação, desejo e força patriótica dos próprios pais, que é o que acontece com “Franzt”, alemão que morreu na guerra e vai ser uma grande sombra, uma fantasmagoria onipresente na vida de muitos personagens.

Anna (Paula Beer, excelente, uma grande revelação) vai sempre depositar flores no cemitério, onde encontra-se o túmulo de seu namorado Frantz que morreu na guerra. Ao perceber que outra pessoa também está depositando flores conhece Adrien, composto por Pierre Niney,  em minuciosa e sensível visão da fragilidade e ambiguidades de seu personagem.

Adrien se mostra tristíssimo, até chorando com a morte de Frantz de quem narra ser amigo. Anna mora com os pais do namorado falecido e após relutâncias iniciais, Adrien é introduzido ao seio desta família, com alegrias tímidas, como o único elo de contato com Frantz.

Um jogo de projeções surge com as histórias que acabam sendo contadas. Até com Adrien por insistência de todos, acaba tocando com o violino que era de Frantz.

De cara uma situação perversa surge. Sobre a grande intimidade que Adrien  passa  da amizade que teve com Frantz, alemão que era grande amante de Paris, cidade de onde veio este até então desconhecido francês, deixa pairar um  clima de homoerotismo não revelado, mas evidente.  
  
Mas isto é plantado por Ozon, conforme já comentado, mais na cabeça dos espectadores, do que entre os que rodeiam Adrien,   pois os personagens mostram grande inocência provinciana e ficam inebriados com esta possibilidade de ter alguém que lhes pode contar como foram os últimos dias de Frantz; seus dias em Paris onde visitaram o Louvre ( onde se impressionaram com um quadro de Monet, que passou a ser o predileto); as lições de violino dadas ao alemão pelo amigo francês, membro de uma grande orquestra e outras recordações doces.

Anna fala muito bem francês e aos poucos  passa dos ciúmes para uma amizade crescente com Adrien, percorrendo espaços e um rio onde ela ia bastante com Frantz. As águas que se tornarão simbólicas (não por acaso conduzem ao cartaz do filme),   inspirarão momentos de intensa dor e prazer possível, tanto no presente, como em embevecidas rememorações.

Acompanharemos trocas de identidade, grandes fantasias, fortes sentimentos de culpa, mentiras objetivas, máscaras que se colam etc, ou seja, elementos tão caros à obra de Ozon, mas aqui apresentados com relativa suavidade em relação a outros trabalhos dele, em meio à dor objetiva ou ao seu disfarce.

Mas este ar suave narrativo lírico, é bom ressaltar, não impede que haja muitos momentos de confrontos, intolerâncias e exasperações.    
Até declarações de amor soam suspeitas, pois podem ser, inconscientemente, tentativas vãs de trazer Frantz de volta à vida por projeções. Algo já visto antes em “Uma Nova Amiga”.
     
Mais uma vez, Ozon explora novas estéticas e gêneros, mas não deixando de manter constantes suas, ampliando ambiguidades. Mas seu olhar para os personagens, a busca por entendê-los e os expor, nunca foi antes tão generosa. O preto e branco empregado, quebrado por sequências coloridas, é completamente pertinente e contribui bastante para este clima.

Tudo se passa como em “Barry Lyndon” de Stanley Kubrick onde ao fim ( Spoilers do início de um parêntesis a outro) ( tendo  Barry sem uma perna, sendo um arrivista desmascarado, novamente pobre e sua ex- Lady pertencente  à  nobreza refazendo suas finanças junto com o filho).... se comenta  que tudo que aconteceu já é passado distante e os personagens que estavam em classes sociais conflitantes, com ódios, rancores, doenças dos nervos etc estão agora igualados.
   
Uma das fortes características dos filmes de Ozon que se faz bastante presente, são as sucessivas imprevisibilidades, dado que a  “psicologia” dos personagens, pelo menos dos protagonistas, estão em constante mutação e consequentemente seus atos tornam-se imprevisíveis. 

Em “Frantz” ocorre a apoteose desta tendência. Coloco psicologia entre aspas, porque existem fatores de ordem psicanalíticas mesmo, como ações desconhecidas, movidas pelo inconsciente, que reverberam na vida dos personagens.

“Frantz” tem vários elementos que poderiam tornar o filme bastante melancólico, mas isto não ocorre, pois o calor humano de muitas situações consegue contornar este sentimento.

Para soar não muito melancólico, Ozon não apela para facilidades, que são típicas de um certo cinema trivial que Hollywood faz, com redenção fácil ao final, dos personagens e do que das circunstâncias em que vivem.

Que expectativas traremos depois que o filme acaba? Até quando mentiras ou autoenganos poderão perdurar? Isto fica para o espectador especular. Aqui Ozon, com cores ambíguas, é  suave e poeticamente perverso.

Atenção Spoilers. Observar o início e fim dos parênteses para retomada do texto.

(Em “Neve Negra” ( 2017) de Martin Hodara, com Ricardo Darin, em cartaz com sucesso, há uma forte mentira apaziguadora que poderá se eternizar. O espectador é até, num relance, convidado para apoiar ser cúmplice. Mas ficará sem saber, se foi por amor mesmo, medo da solidão ou até ganância. Ou tudo isto.

Em “Frantz” temos mentiras bem mais complexas para serem  apaziguadoras. Mas estão muito longe de ser eternas. E nos provoca forte angústia imaginar o que acontecerá quando o “castelo de cartas cair”. Ozon mostra-se com clareza ser perversamente lírico ou liricamente perverso.)  

“Frantz” concorreu a vários prêmios importantes no César 2017, mas este era o ano de reverenciar “Elle” de Paul Verhoeven. E ainda tinha como fortes concorrentes “É Apenas o Fim do Mundo” de Xavier Dolan e num plano menor “Um Instante de Amor” de Nicole Garcia, “Meu Rei” de Maïwennas, mas o prêmio de melhor direção de fotografia lhe estava reservado.

(“Frantz” Trailer Legendado

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A inquietação de Ozon é tal que resolveu realizar depois um filme bem diverso: “L’ Amant Double”, exibido na mostra principal competitiva do Festival de Cannes deste 2017.

 A sinopse nos adianta um filme bem intrigante, o que me faz bastante curioso por assistir, já reconhecendo  marcas autorais, com cruzamentos com o Cinema de Pedro Almodóvar:


Chloé (Marina Vacht) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo. Só que, com o andar das sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul encerra a terapia e indica uma colega para tratar a esposa. Entretanto, ela resolve se consultar com outro psicólogo, o irmão gêmeo de Paul, que ela nunca tinha ouvido falar até então.)

 (L'Amant double (2017) - Trailer (French)

François Ozon é um cineasta que com sua filmografia oferece muitas chaves psicanalíticas por ser melhor desenvolvidas, do que numa simples critica.

Assim como Pedro Almodóvar, Rainer Werner Fassbinder, Todd Haynes, Greg Araki , Gus Vant Saint , Tsai Ming-Liang, Luis Carlos Lacerda, Karim Aïnouz, Hilton Lacerda, Lirio Ferreira etc, Ozon  e suas obras nos instigam a pensar como suas sexualidades desviantes do que seria a “norma”  vão influir bastante em suas estéticas e as formas como abordam suas temáticas, ainda que não se reduzam sempre  claro, a estas questões homoeróticas.

O que foi apresentado sugere quantas questões relativas ao ser humano, de modo geral, foram tocadas.

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 (Filmografia de François Ozon
http://encurtador.com.br/emDLV

Há filmes de Ozon que não foram exibidos no Brasil, nem existem em DVD. 

Há duas coletâneas de curtas metragens que poderiam, além dos outros filmes, ser lançadas em DVD:

1-  François Ozon: A Curtain Raiser @ Other Shorts (1993)

2- X2000: The Collect Shorts of François Ozon ( 2001) 

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PS. Para o texto que me propus escrever, o ideal seria ter revisto todos os filmes (o que só fiz com “Frantz”). O que não foi feito por questão de tempo e indisponibilidade de DVDs. Assim desde já ficam minhas desculpas por eventuais imprecisões.