quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

OSCAR 2020: As Injustiças, Os Que Merecem Vencer e os Que Acredito Que Vão Ganhar

OSCAR 2020: As Injustiças, Os Que Merecem Vencer e os Que Acredito Que Vão Ganhar 




Apesar das flagrantes injustiças históricas do Oscar ( Stanley Kubrick não vencer jamais nem com um Melhor Filme, nem como Melhor Diretor, é uma das maiores delas), levando em conta só filmes falados em inglês, há também grandes acertos como “Lawrence da Arábia”, “Amadeus”, “Um Estranho no Ninho”, “Bem-Hur”, “E o Vento Levou...”,  “O Poderoso Chefão”, “O Último Imperador” etc como Melhor Filme dentre outros. 

E há ainda escolhas bastante audaciosas como “Perdidos na Noite” ( “Midnight Cowboy- 1969)  de John Schlesinger que ganhou os Oscars de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e os dois atores principais, Dustin Hoffman e Al Pacino  concorreram ao Oscar de Melhor Ator. 

O diretor nem foi à cerimônia, pois pela censura que teve ( a maior) e por ser um filme completamente fora de esquadro do que se fazia em Hollywood, não acreditou que saísse com prêmios. Algo que ficou, estupefato, acompanhando pela madrugada em Londres onde preparava “Domingo Maldito” ( Sunday, Bloody Sunday-1971).  

E não podemos esquecer quantos filmes extraordinários foram premiados com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ( hoje Melhor Filme Internacional ) e com a exposição e prestígio que ganham passam a fazer grande sucesso internacional, pelo menos para um público mais exigente. 

Não foi nenhum festival. Foi o Oscar que ao premiar “Mephisto” (1981) de István Szabó o transformou num sucesso mundial. 

E vale lembrar ainda que vários grandes diretores receberam também Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e isto os ajudou bastante a conseguir recursos para outros projetos, tais como Ingmar Bergman, Federico Fellini, Vittorio De Sica, Akira Kurosawa, dentre outros. 

Acrescentemos que só o fato dos filmes serem selecionados já carrega um forte marketing benigno que move pessoas a ir conferi-los no Cinema.

Isto acontece tanto nos prêmios de modo geral, como no de Melhor Filme Internacional (ex- Melhor Filme Estrangeiro).

A carreira de Denis Villeneuve ganhou impulso quando “Incêndios” (2010) concorreu a Melhor Filme Estrangeiro, mesmo perdendo para um filme menor de Susanne Bier, “Em Um Mundo Melhor” (2010). 

Hoje muitos de nós nos lembramos de “Incêndios”. Já o filme de Susanne está esquecido. Mas o Oscar não deixou de um cumprir um belo papel ao dar visibilidade a um grande cineasta. 

Outra onda consequência do Oscar é que o fato de certos filmes terem sido indicados a concorrer a uma vaga no Oscar por seus países de origem, já é um fator atrativo para certa plateia mais atenta. E eles acabam chegando ao circuito exibidor brasileiro.  

Mas agora em que existe novas gerações que vão pouco aos Cinemas e acreditam que possam ver realmente um filme num tablet vulgar até, ou então ficar refém de um serviço de streaming, suas produções, o que ele traz para seu catálogo ou ainda o que tempos depois da tela grande será exibido num Tele Cine,  por exemplo........enfim, dado este contexto todo, é mais do que necessário, é imperioso uma grande festa de celebração do Cinema, a ser visto, prioritariamente na Tela Grande, para depois ser usufruído numa tela caseira. Ou nos famigerados tablets, como queiram... 

Assim, se pela grande emoção dos envolvidos, imprevistos sempre interessantes, a cerimônia do Oscar sempre me foi algo bastante atraente, é agora mais, por mais que sejam clichês gafes cometidas por apresentadores. Aliás neste 2020 é o segundo ano em que o Oscar não terá um apresentador fixo e sim apresentadores convidados para dar conta dos premiados.

Há atualmente muitas reclamações por maior diversidade dos selecionados. Concordo com a ideia desde que não haja prejuízo da qualidade.

 Por exemplo: em princípio seria boa ideia escolher Greta Gerwig concorrendo como melhor diretora por “Adoráveis Mulheres”. Só que analisando os homens escolhidos para este quesito, todos  realizaram um trabalho de direção bastante admirável, num nível que Greta não atingiu. Seria demagogia tirar um deles para incluí-la, dado que deve ser totalizado 5 concorrentes. 

Quanto à questão streaming X Tela Grande, desta vez a Netflix fez a coisa certa. Para nós, brasileiros, “O Irlandês” e “Dois Papas” foram exibidos em cinemas, por tempo bastante razoável, mesmo depois de entrarem na grade da Neflix. Não aconteceu a neurose por busca de “Roma” na Tela Grande como houve no ano anterior. Mas “História de Um Casamento” deveria ter sido exibido em Cinemas no Brasil também, como aconteceu nos EUA.

E “Roma” assisti tanto na Tela Grande como na Netflix. Nesta há sons, diegéticos como se diz quando é produzido no interior do filme, que não se escuta. Só nos cinemas. 

A) Os indicados ao Oscar 2020 

Melhor Filme

"Ford vs Ferrari" 

"O irlandês" 

"Jojo Rabbit"

"Coringa" 

"Adoráveis mulheres"

"História de um casamento"

"1917"

"Era uma vez em... Hollywood"  

"Parasita" 













Direção

Martin Scorsese, “O irlandês”

Todd Phillips, “Coringa”

Sam Mendes, “1917”

Quentin Tarantino, “Era uma vez em... Hollywood”

Bong Joon-ho, “Parasita”

Atriz

Cynthia Erivo, “Harriet”

Scarlett Johansson, “História de um casamento”

Saoirse Ronan, "Adoráveis mulheres"

Charlize Theron, "O escândalo"

Renée Zellweger, “Judy”



Ator

Antonio Banderas, “Dor e glória”

Leonardo DiCaprio, “Era uma vez em... Hollywood”

Adam Driver,  “História de um casamento”

Joaquin Phoenix, “Coringa”

Jonathan Pryce, “Dois papas” 

Roteiro Adaptado

“O irlandês”, Steven Zaillian

“Jojo Rabbit”, Taika Waititi

“Coringa”, Todd Phillips e Scott Silver

"Adoráveis mulheres", Greta Gerwig

“Dois papas”, Anthony McCarten

Roteiro Original

“Entre facas e segredos”, Rian Johnson

“História de um casamento”, Noah Baumbach

“1917”, Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

 “Era uma vez em... Hollywood”, Quentin Tarantino

“Parasita”, Bong Joon-ho e Jin Won Han


Atriz Coadjuvante

Kathy Bates, “O caso Richard Jewell”

Laura Dern, “História de um casamento” 

Scarlett Johannson, “Jojo Rabbit”

Florence Pugh, “Adoráveis mulheres”

Margot Robbie, "O escândalo"

Ator Coadjuvante

Tom Hanks, “Um lindo dia na vizinhança”

Anthony Hopkins, “Dois papas”

Al Pacino, “O irlandês”

Joe Pesci, “O irlandês”

Brad Pitt, “Era uma vez em... Hollywood”

Direção De Arte

"1917"

"O irlandês"

“Era uma vez em... Hollywood”

"Jojo Rabbit"

"Parasita"

Fotografia

“O irlandês”, Rodrigo Prieto

“Coringa”, Lawrence Sher

“O farol”, Jarin Blaschke

“1917”, Roger Deakins

“Era uma vez em... Hollywood”, Robert Richardson

Filme Internacional

“Corpus Christi”, Jan Komasa (Polônia)

“Honeyland”, Tamara Kotevska, Ljubo Stefanov (Macedônia do Norte)

“Os miseráveis”, Ladj Ly (França)

“Dor e glória”, Pedro Almodóvar (Espanha)

“Parasita”, Bong Joon-ho (Coreia do Sul)

Longa De Animação

“Como treinar o seu dragão 3", Dean DeBlois

“I Lost My Body”, Jeremy Clapin

“Klaus”, Sergio Pablos

“Link perdido”, Chris Butler

“Toy Story 4”,  Josh Cooley


Figurino

”O irlandês”, Sandy Powell e Christopher Peterson

“Jojo Rabbit”, Mayes C. Rubeo

“Coringa”, Mark Bridges

“Adoráveis mulheres”, Jacqueline Durran

“Era uma vez em... Hollywood”, Arianne Phillips

Edição De Som

“Ford vs Ferrari”, Don Sylvester

“Coringa”, Alan Robert Murray

“1917”, Oliver Tarney e Rachel Tate

“Era uma vez em... Hollywood”, Wylie Stateman

“Star Wars: A Ascensão de Skywalker”, Matthew Wood e David Acord

Mixagem De Som

“Ad Astra”

 “Ford vs Ferrari”

“Coringa”

“1917”

“Era uma vez em... Hollywood”

Curta De Animação

“Dcera”, Daria Kashcheeva

“Hair Love”, Matthew A. Cherry

“Kitbull”, Rosana Sullivan

“Memorable”, Bruno Collet

“Sister”, Siqi Song

Curta-metragem

"Brotherhood", Meryam Joobeur

“Nefta Football Club”, Yves Piat

“The Neighbors’ Window”, Marshall Curry

“Saria”, Bryan Buckley

“A Sister”, Delphine Girard

Trilha Sonora

“Coringa”, Hildur Guðnadóttir

“Adoráveis mulheres”, Alexandre Desplat

“História de um casamento", Randy Newman

“1917”, Thomas Newman

“Star Wars: A ascensão Skywalker”, John Williams

Efeitos Especiais

"O irlandês"

"O rei leão"

"1917"

"Star Wars: A ascensão Skywalker"

"Vingadores: Ultimato"

Edição

"Ford vs Ferrari"

"O irlandês"

"Jojo Rabbit"

"Coringa"

“Parasita”

Maquiagem

"O escândalo"

"Coringa"

“Judy”

"Malévola: Dona do mal"

"1917"

Canção Original

"I Can’t Let You Throw Yourself Away”, “Toy Story 4”

“I’m Gonna Love Me Again”, “Rocketman”

“I’m Standing With You”, “Breakthrough”

“Into the Unknown”, “Frozen 2”

“Stand Up”, “Harriet”


Longa Documentário

"Indústria americana", Steven Bognar, Julia Reichert e Jeff Reichert

"The cave", Feras Fayyad, Kristine Barfod e Sigrid Dyejaer

"Democracia em vertigem", Petra Costa, Joanna Natasegara, Shane Boris e Tiago Pavan

"For sama", Waad Al-kateab e Edward Watts

"Honeyland", Ljubo Stefanov, Tamara Kotevska e Atanas Georgiev

Curta Documentário

“In the Absence”, Yi Seung-Jun e Gary Byung-Seok Kam

“Learning to Skateboard in a Warzone”, Carol Dysinger

“Life Overtakes Me”, Kristine Samuelson, John Haptas

“St. Louis Superman”, Smriti Mundhra e Sami Khan

“Walk Run Cha-Cha”, Laura Nix

B) As Injustiças 

B)-1 Lupita Nyong’o

 Jordan Peele perde um pouco a mão em “Nós”, exagerando no Grand Guignol, principalmente quando se tem a família branca dizimada pelos negros, num jogo de sustos clichês. 

Mas Lupita Nyong’o interpretando dois personagens faz um trabalho extraordinário e merecia concorrer como melhor atriz. Ela e seu duplo maligno que a quer destruir, aliado às surpresas do roteiro, nos entrega personagens fascinantes a não ser esquecidos facilmente. 

Não assisti Cynthia Erivo em “Harriet”.  Assim para Lupita concorrer eu retiraria tranquilamente Saoirse Ronan de "Adoráveis mulheres",  dentre as cinco concorrentes, pois seu trabalho é bom, mas não tem nada de superlativo. Mas isto é mais problema do roteiro bastante picotado que não desenvolve bem a psicologia e condição das personagens. Entende-se o que se passa com elas. 

Mas nada além do que vimos, de forma poderosa, em tantos outros filmes, principalmente em obras que vem de Jane Austen, como em filmes de James Ivory.    

B)-2 ”O Farol”

 “O Farol” de Robert Eggers é um clássico instantâneo do Cinema de Terror e Suspense. A academia já foi bastante sensível a um filme do gênero, “O Silêncio dos Inocentes” (1991) de Jonathan Demme, que venceu todos os Oscars principais: Filme, Diretor, Ator ( Anthony Hopkins ), Atriz ( Jodie Foster), Roteiro Adaptado. Poderia ser sensível também agora e pelo menos nas indicações celebrar “O Farol”.

A única indicação de “O Farol” foi para Melhor Fotografia. Merecia ser indicado em Melhor Filme, Melhor Direção ( Robert Eggers), Melhor Ator ( William Dafoe e Robert Pattinson, pois os dois são protagonistas, com Dafoe brilhante e Pattinson no melhor momento de sua carreira ),  Melhor Roteiro Original ( e põe originalidade aqui ), Direção de Arte, Figurino, Edição de Som, Mixagem de Som, Trilha Sonora, Edição. 

Vale a pena estudar um pouco os mitos de Prometeu e do semideus Tritão (filho de Poseidon e Anfitrite, sendo este último Deus dos Oceanos na Mitologia Grega.). E então rever o filme. 

Muitas das características destes mitos já serão anunciadas no decorrer da narrativa em palavras e ações. 

Assim confirmarão que o desfecho do filme não tem nada de gratuito. 











    
B)-3 “1917” 

 O resultado magistral de “1917” não se deve apenas aos elementos que contribuíram para a grande autenticidade de um plano-sequência só (na realidade são dois os produtos da incrível montagem), proporcionando um grau de imersão numa guerra nunca visto antes. E sentir uma guerra na própria pele, vale por mil discursos pacifistas que ouçamos. 

O trabalho do conjunto de atores e principalmente de George Mackay como o mensageiro obstinado cabo Schofield, com muito medo, mas também coragem estampados no rosto, também contribui bastante para o verismo da obra e nosso alto grau de identificação com tudo o que lhe acontece.  

“1917” merecia ter sido indicado obviamente em Melhor Edição, pois é justamente este trabalho hercúleo que possibilitou a formação de unicidade do plano-sequência. 





B)-4  “Dor e Glória” e “Os Miseráveis”

De modo geral, os candidatos a melhor filme são de língua inglesa. O filme francês “O Artista” (2011) de Michel Hazanavicius venceu, mas se valia do começo ao fim da estética do cinema mudo, num mix de homenagem a “Cantando na Chuva” e “Crepúsculo dos Deuses”, além de referências a Charles Chaplin.  

O grande sucesso de “Parasita” que fez parte do público americano vencer a resistência e ir aos cinemas assistir a um filme sul-coreano legendado em inglês, fez com que a Academia incluísse “Parasita” como concorrente a Melhor Filme e em outras categorias, além de Melhor Filme Internacional, como direção e montagem. 

Foi o mesmo caso de “Roma” (2018) de Alfonso Cuarón no Oscar 2020, indicado também para Melhor Filme. 

Mas isto pode criar situações esdrúxulas.  “Roma” venceu como Melhor Filme Estrangeiro. Mas perdeu como Melhor Filme para “Green Book :O Guia” (2018) de Peter Farrely. Seria este realmente superior em qualidade a “Roma”? Pela lógica teria sido o “melhor filme feito no mundo” em 2018.......

Mesmo eu, que faço algumas restrições a “Roma”, o considero, sem dúvida, bem melhor que o filme de Farrely. 

Abertas estas exceções para Melhor Filme, com língua não inglesa, podemos pensar historicamente quantos filmes poderiam ter merecido este privilégio! E desta leva de 2019 “Dor e Glória” ( falado em espanhol), “Os Miseráveis”( falado em francês), dentro desta lógica, que concorrem com “Parasita” como Melhor Filme Internacional,  mereceriam também concorrer como Melhor Filme.

Da lista de candidatos a Melhor Filme um que certamente retiraria seria “Jojo Rabitt” de Taika Waititi, um filme que não encontra seus tons, soando como uma mistura de comédia e drama quase que indigesta. Nossos risos soam envergonhados nesta história de um garoto que tem Hitler como seu herói imaginário. 

Há um acontecimento bastante dramático ( Spoilers: a mãe de Rabbit dependurada, vista pelos calçados, morta por ter abrigado uma judia em sua casa ), em que depois dele,  rir no filme se torna algo constrangedor. Algo que já não era fácil se torna mais difícil. Nada mais chato do que uma comédia que quer ser engraçada mas não consegue. 

O próprio diretor Taika Waititi compõe Hitler, amigo imaginário de Jojo. Mas também não encontrou o tom. Caricatural demais. Note-se que em nenhuma premiação cogitou-se do diretor concorrer como Melhor Ator Coadjuvante. 

A menina judia que a mãe de Jojo esconde em casa (uma alusão afetiva a Anne Frank ) é por demais determinada e forte. Um tanto de fragilidade, devido à sua condição,  faria melhor ao personagem e filme. Do jeito que se comporta se aproxima da chatice sabichona. 

Outro filme selecionado entre os nove que não me envolve tanto, ainda que seja bem melhor que “Jogo Rabbit”, é “História de Um Casamento” de Noah Baumbach. 

Não há como deixar de lembrar do nível atingido por Ingmar Bergman no seu quintessencial “Cenas de Um Casamento” (1972). 
Há uma sequência em que Charlie (Adam Driver ) entra em desespero total e agride Nicole ( Scarlett Johanssson) com as palavras mais cruas: se não houvesse o filho em jogo, gostaria que ela morresse, com todas as suas forças.Depois cai num choro convulsivo que ela vai consolar. Há algo de bergmaniano aqui quando o bicho homem surge, mas nesta sequência apenas. 

Nicole havia prometido não se valer de advogados, mas ao dar aval à vilanesca e pragmática advogada Nora ( Laura Dern), com seu feminismo cruel, isto desequilibra o filme. 

Ele acaba tendo um lado. Charlie passa a ser quase que vítima de Nicole/Nora. E isto não é bom dramaturgicamente

Avalizando o trabalho de Nora, Nicole a ela se iguala. 











B)-5 Robert De Niro 

 Depois de anos participando de filmes de qualidade duvidosa, como a franquia “Entrando Numa Fria”, Robert De Niro em 2019 deu a volta por cima e merecia ser indicado como ator coadjuvante por “Coringa”, onde dá o tom mais do que certo para um apresentador do show business televisivo bastante manipulador, mas quer passar um ar de seriedade ao que faz. 

Merecia ter sido indicado também a Melhor Ator por “O Irlandês” como Frank ‘O Irlandês’ Sheeran, o motorista de caminhão que se paulatinamente feroz matador de aluguel, se enredando em tramas da máfia, ficando prisioneiro dela.

Logo de início já o temos senil, internado num asilo para idosos. Passa a ser o narrador da história, nos encarando enquanto espectadores ( quebra da quarta parede no Cinema )  e o que se tem é um homem que descobre muito tarde o quanto viveu erradamente, desprezando seus filhos e mulheres.

Robert De Niro compõe Frank de forma contida, mas sabemos o quanto há de cálculo e dor nas suas ações. Ele precisa matar Jimmy Hofffa (Al Pacino ), mas não faz isto de forma pacífica. Tem de seguir em frente se não morre, mas sofre bastante com seu ato. Não é um matador que “tire de letra”  este seu ato violentíssimo com alguém com quem tinha graus de amizade.   




C) Os que merecem vencer e os que acredito que vencerão, podendo haver concordância ou não, com base nos indicados, esquecendo-se o que apontei como lacunas injustas.  

C1- Melhor Filme 

O que merece vencer: “1917”

O que acredito que vencerá: “1917”






C2- Melhor Direção 

O que merece vencer: Sam Mendes 

O que acredito que vencerá: Sam Mendes 




C3- Melhor Atriz 

Quem merece vencer: Renée Zellweger por “Judy”

Quem acredito que vencerá: Renée Zellweger, “Judy”




O trabalho de Renée realmente impressiona. Mas existe um calcanhar de Aquiles. A atriz canta muito bem as canções de Judy Garland, com o gestual adequado. Mas acontece que Judy cantava divinamente, poderia se fosse bem empresariada mesmo, ter vivido só como cantora (e além disso era atriz e dançarina). 

Assim, ouvir Renée cantar nos leva a um anticlímax. A não ser que o filme queira nos passar a ideia de que nos últimos anos de vida, Judy já estava longe de grandes performances vocais. 

C4- Melhor Ator

Quem merece vencer: Joaquin Phoenix por “Coringa” (  Num segundo nível, Antonio Banderas. Adoraria poder haver um empate, algo que já aconteceu com Barbra Streisand  e Katharine Hepburn )

Quem acredito que vencerá: Joaquin Phoenix por “Coringa”






C5- Roteiro Adaptado 

Quem merece vencer: “O Irlandês”, Steven Zaillian

Quem acredito que vencerá: “Jojo Rabbit”, Taika Waititi 


C6- Roteiro Original 

Quem merece vencer: “Era uma vez em... Hollywood”, Quentin Tarantino

Quem acredito que vencerá: “Parasita”, Bong Joon-ho e Jin Won Han 












C7- Atriz Coadjuvante 

Quem merece vencer: Laura Dern, “História de um casamento”

Quem acredito que vencerá: Laura Dern, “História de um casamento”





C8- Ator Coadjuvante 

Quem merece vencer: Al Pacino, “O Irlandês”

Quem acredito que vencerá: Brad Pitt, “Era uma vez em... Hollywood”





C9- Direção de Arte 

Quem merece vencer: "1917"

Quem acredito que vencerá: "1917"










C10- Fotografia 

Quem merece vencer: “1917”, Roger Deakins

Quem acredito que vencerá: “1917”, Roger Deakins





C11- Melhor Filme Internacional 

Quem merece vencer: “Dor e glória”, Pedro Almodóvar (Espanha)

Quem acredito que vencerá: “Parasita”, Bong Joon-ho (Coreia do Sul)

De “Dor e Glória” gosto de absolutamente tudo, inclusive dos inteligentes e engenhosos recursos gráficos para nos mostrar as dores de coluna do cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas, sublime), bem como um resumo de sua carreira, onde aprendeu geografia através das viagens que fez para divulgar seus filmes, matéria que não estudou no colégio de padres, pois logo o colocaram para estudar só canto. 

E o desfecho é simplesmente também sublime,como também o é o de “Era Uma Vez Em....Hollywood” de Quentin Tarantino,  ambos bastante orgânico com tudo o que se viu antes. 

Já de “Parasita” dois componentes me incomodaram. Primeiro foi a comunicação em código morse entre pai e filho que me pareceu truque forte de roteiro, mesmo dentro da lógica de um filme que mistura gêneros os mais diversos assumidamente. 

Segundo, a batida com a pedra na cabeça do jovem Ki-Woo ( Woo-sik Choi) feita por Geun-se ( Mylong – hoon Park), que vivia escondido no porão secreto,  foi tão forte que derramou muito sangue. A recuperação do jovem depois de algumas ideias confusas me pareceu outro truque forte de roteiro. O que sofreu o mataria. 

Mas no conjunto continuo considerando “Parasita” um filmaço. Apenas faço estas colocações para explicar do porquê gosto mais ainda de “Dor e Glória”. 
















C12- Longa de Animação

Fico devendo. Há animações importantes e bastante comentadas que não assisti. E não gosto nada da ideia de premiar filmes de franquia. Torço para que um dos três vença: “I Lost My Body”, Jeremy Clapin; “Klaus”, Sergio Pablos e “Link perdido”, Chris Butler

C13- Figurino

Quem merece vencer: ”O irlandês”, Sandy Powell e Christopher Peterson 

Quem acredito que vencerá: “Adoráveis mulheres”, Jacqueline Durran 








C14- Edição de Som 

Quem merece vencer: “1917”, Oliver Tarney e Rachel Tate

Quem acredito que vencerá: “1917”, Oliver Tarney e Rachel Tate 

C15- Mixagem de Som

Quem merece vencer: “1917”

Quem acredito que vencerá: “1917”

C16- Curta de Animação 

Passo adiante. Não assisti nenhum.

C17- Curta-Metragem

Passo adiante. Não assisti nenhum.

C18- Trilha Sonora 

Quem merece vencer: “1917”, Thomas Newman 

Quem acredito que vencerá: “1917”, Thomas Newman

C19- Efeitos Especiais 

Quem merece vencer: "1917" 

Quem acredito que vencerá: "1917" 










C20- Edição 

Quem merece vencer: "O Irlandês"

Quem acredito que vencerá: "O Irlandês"








( Como já comentei, a melhor edição seria para “1917”, mas incompreensivelmente não está entre os indicados nesta categoria.  
A edição de “Parasita” que o faz transitar por vários gêneros, também é excelente. Mas considero a de “1917” e “O Irlandês” superior. Aliás, dado a forte identidade, familiaridade e  cumplicidade de anos entre a montadora Thelma Schoonmaker  e Martin Scorsese, faz da edição dos filmes deste um show à  serviço da história que se tem para contar. ) 

C21- Maquiagem

Quem merece vencer: "1917"

Do início ao fim, o panorama devastador bastante variado que se encontra e até mesmo os acidentes de percurso são produtos de excepcional trabalho de maquiagem. 

Quem acredito que vencerá:  "Coringa"

A máscara construída para chegarmos ao Coringa é excepcional. Mas, no conjunto, “1917” impressiona mais.  

C22- Canção Original 

Fica apenas quem acredito que vá ganhar, pois não conheço todas: I’m Gonna Love Me Again”, “Rocketman”

C23- Longa Documentário 

Mais uma vez, fica apenas quem acredito que vá ganhar, pois não conheço a maioria. Pela repercussão que anda tendo, deve vencer  "Honeyland", Ljubo Stefanov, Tamara Kotevska e Atanas Georgiev. 

É um filme da Macedônia que conseguiu um feito inédito no Oscar. Concorre tanto a Melhor Documentário de Longa Metragem Internacional, como a Melhor Filme Internacional.




E confesso a vocês que com relação a “Democracia em Vertigem”, disponível na Netflix, acontece algo de que não gosto nem um pouco. 

Por tudo que li sobre o filme, é daqueles que não assisti e não gostei. Há muitas mistificações em jogo pouco ou nada debatidas. 
Recomendo esta matéria de “O Estado de São Paulo” com fartas referências bibliográficas de texto e imagem, com link mais abaixo. Não sei de nenhum lugar onde Petra tenha respondido às graves objeções. 

Quanto ao fato do filme ser reconhecido no Oscar, não é surpresa, dado o grau de autoritarismos e retrocessos que se encontra em várias partes do mundo. A questão que se coloca é: as correlações que Petra estabelece são compatíveis mesmo com a História recente do Brasil. 

Por mais que, merecidamente, odiemos as loucuras e desmandos do executivo em vigor, não se deve embarcar em qualquer canoa que traga o que queremos ouvir, sem forte análise crítica devida. 

O filme nem comenta “a facada no Mito” (fake?;até hoje algo muito mal explicado, com advogados caríssimos surgindo etc), decisiva para ele crescer com esta condição e não precisar participar mais de debates, onde seria, dado suas grandes ignorâncias, devorado pelo adversário Haddad que é professor da USP. 

E o filme está longe de apresentar Lula como o maior cabo eleitoral de Bozo. Junto aos que consideravam este um “Mito” se agregaram os que tinham horror à volta do PT, mesmo que na forma de Fernando Haddad como presidente. Temiam também aquilo que o STF guiado pelo fraco Dias Toffoli fez:  a soltura de Lula, com a queda da prisão em segunda instância. 

Eu que votei em Ciro Gomes no primeiro turno, sabendo da crônica do grande desastre anunciado que era Bozo ser eleito presidente, esqueci por então, minhas grandes críticas ao PT/Lula, principalmente por não fazerem autocrítica ( algo que não aconteceu até hoje, fevereiro de 2020), acabei cravando voto crítico em Haddad.  

https://estadodaarte.estadao.com.br/o-fantastico-mundo-de-petra-como-a-cineasta-inventou-um-passado-clandestino-para-seus-pais/ 

O fantástico mundo de Petra: como a cineasta inventou um passado clandestino para seus pais

 11/07/2019 Astier Basílio    
     
C24- Curta Documentário 

Não assisti nenhum. 

D) Texto do Estadão 

Para quem o link acima pedir senha e não for assinante, trago adiante o texto completo, mas o que está linkado só aparece no material original. 
Cinema 
O fantástico mundo de Petra: como a cineasta inventou um passado clandestino para seus pais
 11/07/2019 Astier Basílio


por Astier Basílio

As imagens têm o colorido estourado típico do VHS. O ano é 1984. Quem segura a filmadora é Marília Furtado de Andrade. Tem 34 anos na época das imagens. Estamos dentro da sua casa. É uma festa de aniversário. De sua filha, Petra Costa. A diretora de cinema, agora, tem quase a mesma idade da mãe quando a filmou na cena colocada no início de Democracia em Vertigem, documentário disponível na plataforma Netflix.

Ouvimos a voz da diretora que diz “eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade”. Ao falar do teatro político brasileiro, da greve dos metalúrgicos à eleição de Bolsonaro, Petra abre as portas de sua intimidade. Drama público e íntimo são convocados para uma mesma dança. Quando vemos Marília Furtado de Andrade filmando-se num espelho, a fala de Petra sublinha: “Essa é minha mãe. Ela tinha passado os anos 70 com meu pai na clandestinidade”. Em seguida, acrescenta: “Por uma década, a família não fazia ideia de onde eles moravam”.

“Clandestinidade” consentida pelos pais

Não é a primeira vez que Petra evoca o passado revolucionário dos pais. Em Elena (2012), documentário sobre o drama da perda da irmã, também foram exibidas as fotos de Manoel Costa Júnior e de Marília Andrade. Em 1968 ambos foram presos no Congresso da UNE, em Ibiúna, junto com outros 700 estudantes.

A clandestinidade dos pais da cineasta não passa de uma fantasia lírica. Quando afirma que por dez anos o paradeiro de seus genitores foi desconhecido dos parentes, há só parte da informação. Todos os anos, os pais de Petra visitavam a família em Belo Horizonte[1]. Era, portanto, uma clandestinidade que permitia férias. Tão logo casou, Marília ganhou de presente, 6 mil dólares da família[2]. Em valores de hoje, a soma chega a 44 mil. Foi com esse dinheiro que puderam brincar de revolução.

No Youtube, Petra Costa mantém uma página chamada “Elena Filme”. Há excertos de cenas que não foram aproveitados no documentário. Há um vídeo revelador, “5 Infância na clandestinidade”, no qual encontra-se o seguinte depoimento de Marília Andrade: “Nós não ficamos propriamente na clandestinidade, que nós nem mudamos de nome. Nós ficamos numa coisa que chama stand-by. A gente ficou clandestino para nossa família”.

Mãe de Petra filiada ao PT

A narrativa é feita de recuos e avanços. Inicia-se com a intimidade dos bastidores de Lula, encastelado no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, com ordem de prisão expedida. Após a exibição de sua festa de um ano, Petra recua no tempo até 1979. Mostra Lula. “Para minha mãe, ele era a expressão de um ideal”. Poderia dizer que o ex-presidente significava bem mais do que isso para Marília Andrade, filiada ao PT desde 1997.  

Em 1984, no ano em que segura a filmadora VHS, a herdeira do grupo Andrade Gutierrez, havia criado uma revista. Chamava-se “Brasil Extra”. Teve apenas um número. Quem foi entrevistado? Acertou quem disse Lula. Na primeira campanha presidencial do petista em 1989, suas passagens aéreas foram pagas pela mãe de Petra. Curiosamente, naquele ano, 89% do faturamento da empreiteira da família eram provenientes de contratos com obras públicas.

Na última eleição, Marília Andrade também foi uma das maiores doadoras individuais do candidato do PT, Fernando Haddad. Doou R$ 9 mil. Pela legislação, pessoa física pode dar até 10% de sua renda bruta anual. O último presidenciável petista também perdeu a reeleição para prefeito de São Paulo em 2016. Contou com uma doação financeira de Petra. Recebeu a mesma quantia: R$ 9 mil.

As omissões da memória [1]: o pai do PMDB

Na festa de aniversário, a pequena Petra é embalada por um jovem sorridente de camisa de manga comprida. É seu pai. Manoel Costa Júnior. Na ocasião tem 39 anos. É estranho que a edição do filme corte para as manifestações pelas Diretas Já e omita o fato de que o pai de Petra era deputado federal, do PMDB, participante ativo do movimento.

O avô paterno de Petra, Manoel da Silva Costa também era político. Elegeu-se deputado estadual pela primeira vez quando o filho tinha 6 anos. Seu partido foi a UDN. Quando Petra mostra as fotos dos pais presos em Ibiúna, o seu avô paterno já estava no quarto mandato. Mais do que isso. Era presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Pertencia à ARENA, partido de sustentação da ditadura militar.

Até que no documentário surge Brasília em construção. Vemos imagens de cima. Feitas pela avó de Petra. A voz da diretora informa que Gabriel Andrade, seu avô e fundador da construtora Andrade Gutierrez, não quis se envolver na construção por temer a derrubada de Juscelino Kubitschek.

As omissões da memória [2]: relações com JK

“Juscelino, que minha mãe, essa menininha de rabo de cavalo, viu rapidamente quando ele governador de Minas já sonhava com Brasília”. Quem assiste a esta cena tem a impressão de que o contato entre a família de Petra e o presidente que construiu Brasília foi, digamos, fortuito ou circunstancial.

A Andrade Gutierrez foi fundada pelo avô de Petra, Gabriel, ao lado do irmão Roberto e do amigo Flávio Gutierrez. Há, porém, um outro irmão que preferiu não enveredar pelo ramo da construção: José Maurício de Andrade. Um ano antes do empreendimento familiar, entrou para a política.

De 1947 a 1969, o tio-avô de Petra foi eleito duas vezes deputado estadual e três vezes deputado federal. Revezou-se entre UDN e PSD. Os ramos materno e paterno da cineasta se irmanam politicamente: apoiavam a ditadura militar. O último partido de Maurício de Andrade também era a ARENA.

Quando Juscelino foi governador, o irmão do avô de Petra foi líder do governo na Assembleia Legislativa. Na eleição presidencial, Maurício Andrade engajou-se na campanha. Quando Juscelino assumiu, aconteceram as primeiras obras rodoviárias da Andrade Gutierrez, bem como a primeiras construção fora de Minas Gerais, a BR-3, que ligou o Rio de Janeiro a Belo Horizonte.

Pai de Petra secretário de Aécio

Até que Petra mostra a tribuna do Senado. Aparece Aécio Neves, do PSDB. A voz da diretora o apresenta. “Nossas famílias têm uma ligação. Sua mãe se casou com um primo do meu avô”. Petra prossegue na dança. A história nacional e a familiar se encontram. E mais uma vez a cineasta omite. Em 2006, quando se reelegeu governador por Minas Gerais, Aécio Neves convidou Manoel Costa Júnior, pai de Petra, para integrar o seu secretariado. Foi o titular da pasta da Secretaria Extraordinária para Assuntos de Reforma Agrária.

O pai de Petra ocupou o cargo até 2011, sob a gestão de Antônio Anastasia, vice-governador que assumiu o cargo com a renúncia do titular. Manoel Costa foi afastado após investigação da Polícia Federal e dos Ministérios Público Estadual e Federal apontar fraude na legalização de terras no Norte de Minas Gerais.

O muro imaginário a separar a família

Ao mostrar o Palácio do Planalto com um muro a separar os manifestantes pró e contra o impeachment, Petra mais uma vez, abre as portas de sua casa. Dá a impressão de que existe, em sua família, uma divisória semelhante. “Eu vejo que a história dessa crise, desse muro, atravessa minha família. De um lado, a elite da qual meus avós faziam parte, do outro a história dos meus pais e da esquerda que eles sonharam, que está desmoronando”.

A impressão que se tem, ao ouvir a voz da diretora, é que havia lados opostos em sua família. Além de visitar a família todos os anos, Marília e Carlos trabalharam para a Andrade Gutierrez nos anos 1970, período da suposta e alardeada clandestinidade. Em Londrina, a mãe de Petra fez curso de pedagogia e todo o seu esforço de militância redundou na vitória do DCE de seu grupo. Manoel vendia remédios. Em 1974, o casal voltou para Belo Horizonte, onde ficaram por mais dois anos. Neste período, o pai de Petra estagiou numa das fazendas do sogro.

Há um longo depoimento sobre este período presente no livro Tempo de Poeira, (Eduel, 2018) de Tadeu Felismino. Parte significativa das falas de Marília Andrade, além de informações presentes neste texto, foram extraídos desta obra.

Partido não deixou mãe de Petra ser operária

Outra base de informações sobre a militância da mãe de Petra veio de outro depoimento. Este concedido em um vídeo do canal Dh Paz, hospedado no Youtube. Aqui Marília Andrade revela sua devoção por Pedro Pomar, líder do PCdoB. Ao terminar seu curso de graduação, a mãe de Petra foi pedir permissão para acabar o casamento. “Pedro, eu já fiquei 4 anos lá em Londrina, mais dois em Belo Horizonte, sendo família perfeita. Agora eu quero divorciar. Já pedi ‘n’ vezes vocês nunca deixaram. Aí ele falou assim: me dá um tempo. Eu te peço só um tempo. Aí mandou o Mané quatro meses pra longe”[3].

É impressionante como se tenta imprimir um valor revolucionário, clandestino, às decisões de foro pessoal. Um detalhe interessante é que o PCdoB, a quem o jovem casal de ricos se submetia, não autorizava quase nada que a mãe de Petra queria. Com uma semana de casamento, Marília quis separar, mas não permitiram. Marília não queria ter filhos, mas para se fantasiar de família pobre, aceitou. Quis trabalhar como operária, também lhe foi negada pela legenda. Quis escrever para um jornal, mas também não foi autorizada.

Empreiteiro pede revezamento de filhos da revolução

“Eu não sei como isso deve ser contado. O fato é que durante a ditadura, enquanto os meus pais estavam na clandestinidade e muitos dos seus amigos eram torturados e assassinados, a empresa do qual meu avô era sócio crescia e se tornava uma das maiores construtoras do país”. Ouvido assim até parece que há uma espécie de autocrítica de Petra com o passado familiar. Mais uma vez, Petra faz da memória peça de ficção.

Quando Manoel Costa voltou de Belém, ficou entusiasmado com a possibilidade de continuar brincando de revolução no Norte do país e convidou Marília para acompanhá-lo. “Ele falou: ‘eu fui destacado para fazer trabalho na zona rural’. Eu falei: ‘Mané, você não tem nenhuma experiência’. Aí eu tive uma ideia: vai lá em Minas, meu pai tem fazenda, você vai estagiar na fazenda do meu pai, depois você tem currículo, pra arrumar o emprego”[4].

O projeto “revolucionário” do casal de jovens ricos nunca foi um problema na Casa Grande dos Andrade. Não era apenas Marília que tinha se envolvido com organizações de esquerda a ponto do sócio-fundador da empreiteira, e avô de Petra, pedir à filha que houvesse um revezamento dos filhos. “Você podia falar lá pra ir um de cada vez?”[5].

Marília conta que quando o marido terminou o estágio, surgiu o convite para trabalharem na empreiteira da família. “Meu pai falou: ‘vem pra cá, o Manoelzinho foi tão incrível, ajudou tanto na fazenda’. Aí eu falei: “Papai, a gente quer ir pra Amazônia’. Aí meu pai falou: ‘Não tem problema. A gente atua na Amazônia há uma década e tem isenção de imposto de renda e os políticos e as autoridades de lá ficam só cobrando que a gente tem que implantar um projeto. Não só fazer estrada, hidrelétrica… e ir embora. E a gente não tem ninguém pra fazer isso, se vocês toparem. Nem perguntou: se estão militando”[6].

Trabalho para empreiteira transformado em ação revolucionária

Quando Petra mostra Lula indo pela primeira vez ao Congresso Nacional, em 1979, naquele mesmo ano, o pai dela também havia cruzado os corredores do poder. Mas não estava do lado dos grevistas. Como representante dos interesses da Andrade Gutierrez,  Manoel Costa Júnior participava do Simpósio Nacional sobre Agropecuária, realizado pela Comissão de Agricultura e Política Rural. 

Sobre o episódio, vejamos o que diz o jornal Folha de S.Paulo, em 4 de dezembro de 1979. A matéria tem como título: “A Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura) distribuiu nota, ontem, considerando ‘um caso escabroso’ a decisão do Senado autorizando a alienação de 400 mil hectares de terras na Amazônia para a construtora Andrade-Gutierrez, que ali implantará um projeto de colonização. Tal autorização – frisa a Contag – se deu graças à participação majoritária dos senadores ‘biônicos’ da Arena, descomprometidos com o voto popular, enquanto a Oposição se retirou do plenário, em protesto”.

A capacidade de deformar liricamente a memória que Petra apresenta no documentário sempre que se refere ao passado de sua família é uma herança da mãe. Avaliem como Marília reinventa o trabalho feito para a empreiteira do seu pai. “Então, nós entramos nessa política ousada de fazer um trabalho, assim, contando com a burguesia nacional como aliada”[7].

As consequências desta “ousadia” se fazem sentir até hoje.  É o que se pode ver no livro Povos Indígenas no Brasil: 2006 – 2010, editado por Carlos Alberto Ricardo e Fany Ricardo. “(…) Fundamentado na atividade madeireira e na pecuária, esse projeto levado a cabo pela construtora Andrade Gutierrez trouxe consequências nefastas para os Parakanã (…)”.

A própria Marília deixou escapar que participou de outro projeto da empreiteira. Naquele mesmo ano de 1979, que Petra apresenta e diz que “os ventos começaram a mudar…”, sua mãe, de alguma maneira, estava atuando na construção de Itaipu, obra delegada também à empreiteira da família. Marília chamou a amiga dos tempos de DCE em Londrina, Célia Regina, para fazer um serviço para a Andrade Gutierrez. “Eu convidei ela pra ir em Itaipu fazer uma pesquisa dos colonos que iam ser desalojados pra ver se levavam eles pro nosso projeto”[8].

A ação da construtora da família de Petra, em consórcio com outras empreiteiras, trouxe também impacto negativo com a população indígena. Em abril deste ano, a Procuradoria Geral da República publicou um relatório no qual afirma que “a construção da usina hidrelétrica de Itaipu (…) gerou graves violações de direitos indígenas, com adulteração de procedimentos para subestimar o número de índios que habitavam a região”.

Mãe de Petra pede a Lula em favor de negócio da família

Em alguns momentos no documentário, a mãe de Petra dá sua opinião como se fosse uma pessoa alheia aos negócios da família. Como se fosse uma comentarista política neutra a avaliar a realidade brasileira e a criticar a burguesia. Marília, acionista nas empresas da família e pecuarista, sempre atuou nas empresas do grupo. Um exemplo emblemático se dá na criação da ONG “Sertão Brás” que, conforme ela própria diz, “no começo era pra defender a legalização do queijo de leite cru”.

Em 2008, a Andrade Gutierrez completou 60 anos. Realizou uma série de jantares em várias cidades. Uma delas foi Brasília. A festa contou com a presença do então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva. O acontecido é narrado com detalhes pelo jornalista Camilo Vannuchi no belo texto “Fazendeiro do ar”, sobre Gabriel Andrade. Como sobremesa foi servido queijo da Canastra com goiabada cascão, iguaria preparada pela matriarca Vera, avó de Petra. Marília Andrade também estava lá. Aproveitou para dizer que aquele queijo não poderia ser comercializado fora de Minas por conta da legislação.

Disse ainda que haviam criado a ONG por conta disso. Lula se fez de desentendido. Falou que era preciso abrir uma empresa e não uma ONG. Até que se deu o seguinte diálogo:

“— Presidente, escolhe  —  a filha de Gabriel, disse baixinho  —, ou o senhor legaliza o queijo ou a maconha. Rápido e bem humorado, Lula retrucou: — Eu legalizo o queijo. A maconha deixo pra Dilma. Pré-candidata à Presidência da República, Dilma disse ‘legalizaremos’. O chiste virou assunto no dia seguinte, comentado entre Lula e os ministros”.

Dois anos antes desta conversa, Marília Andrade havia sido nomeada assessora da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

Avô de Petra propôs executar assassino de guerrilheiro

Quando era adolescente, Marília Andrade sofreu depressão. Não encontrava sentido em nada. Como ela mesmo conta, veio encontrar um ideal para a vida não em Paris, não em Nova Iorque, mas na revolução. Os ideais de socialismo lhe vieram através de Manoel Costa Júnior, recém chegado dos Estados Unidos. Lá, o filho do deputado da ARENA, encontrou as leituras que fizeram sua cabeça. No coração do imperialismo, o jovem rico converteu-se à revolução.

No terceiro ano do antigo científico, Marília tinha uma resposta pronta aos professores que perguntavam sobre seu futuro. “Nunca mais vou estudar. Vou ser guerrilheira”[9]. O passado da mãe de Petra é apresentado em Democracia em Vertigem sob um filtro distorcido do lirismo guerrilheiro e fantasioso. Quem lê e assiste aos depoimentos de Marília atesta que ela viveu uma militância que “poderia ter sido e que não foi”. Quase foi lutar na guerrilha do Araguaia. Quase foi operária. Quase foi presa, devido a inquérito policial aberto. O condutor da operação, Tenente Raul foi, nas palavras de Marília, “bonzinho”. O que fazer quando se tem que lidar com a herdeira de uma empreiteira poderosa cujos laços familiares, seus e os do marido, eram protegidos por deputados da ARENA?

“Foi um período chato, em que comecei a sonhar em ser presa ou exilada”, chegou a dizer, relembrando suas aspirações da época. Após a morte de Pedro Pomar em 1976, Marília conta que passou três anos “abaladíssima, pensava até em ser mulher-bomba”. Até que contou tudo ao pai, Gabriel Andrade. Quando ouviu o relato, o pacato e milionário empreiteiro fez uma proposta um tanto inusitada à mãe de Petra: “meu pai disse: ‘você quer que a gente manda matar esse cara? Eu falei não, papai, não adianta. Não vai trazer ele de volta”[11].

No final do documentário, a cineasta diz: “Somos uma república de família”. Curioso. Democracia em vertigem é permeado por várias imagens de dentro do Palácio, do coração do poder. Foram feitas por Ricardo Stuckert. Fotógrafo oficial do ex-presidente Lula. Quando o filme começa, Petra mostra Brasília, em 1979. O presidente naquele ano era Figueiredo, cujo fotógrafo oficial era ninguém menos que o pai de Ricardo Stuckert, Eduardo. Curiosamente, os três únicos presidentes que sorriram em fotos oficiais, Figueiredo, Lula e Dilma, têm algo em comum: um Stuckert por trás das lentes. Uma família de serviçais do poder.

Não é à toa que Marília Andrade, cujos tios paternos e o avô eram simpatizantes do integralismo, trazia uma pergunta de algibeira sempre que se encontrava com um “chefe” do Partido Comunista: “(…) e minha família, que é da burguesia nacional, é inimiga ou aliada?”.

Notas

[1] posição 1328 de 4412 do ebook “O Tempo do Poeira”

[2] posição 1267 de 4414 do ebook “O Tempo do Poeira”.

[3]  depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87ao [47:29]

[4] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87ao [48:24]

[5] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87ao [49:32]

[6] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87ao [48:42]

[7]  depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87 [49:57]

[8] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87 [50:49]

[9] posição 847 de 4414 do ebook “O Tempo do Poeira”.

[10] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87 [32:13]

[11] depoimento de Marília Andrade ao DHPAZ Paraná

https://www.youtube.com/watch?v=Fz4rEkN87ao [45:10]

Astier Basílio

Astier Basílio é jornalista, poeta, ficcionista e dramaturgo. Venceu o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Melhores, Os Decepcionantes e os Piores Filmes de 2019.

Os Melhores, Os Decepcionantes e os Piores Filmes de 2019.  

Foram escolhidos filmes que estrearam de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2019. 

Só contam os filmes que tive a oportunidade de assistir em Cinemas.  

Alguns filmes merecem comentários. 

Como adendo, temos filmes vistos no Festival do Rio 2019. 

1- Os Melhores Filmes de 2019. 

a) Os 13 Melhores em Ordem de Preferência. 

1- Empate: ”O Irlandês” (2019) de Martin Scorsese /  “A Árvore dos Frutos Selvagens” ( 2018) de Nuri Bilge Ceylan

2- “Dor e Glória” (2019) de Pedro Almodóvar 

3- “Parasita” (2019) de Bong Joon-ho

4- “Cafarnaum” (2018) de Nadine Labaki

5- “A Favorita” (2018) de Yorgos Lanthimos 

6- “Assunto de Família” (2018) de Hirokazu Kore-eda. 

7- “Era Uma Vez Em .... Hollywood” (2019) de Quentin Tarantino 

8- “Coringa” (2019) de Todd Phillips 

9- “Los Silêncios” (2017) de Beatriz Seigner 

10- “A Vida Invisível” (2019) de Karim Aïnouz 

11- “Synonymes” (2019) de Nadave Lapid 

12- “Vidro” (2019) de M. Night Shyamalan 

- “O Irlandês”- Épico intimista que revigora os filmes de Máfia como não supúnhamos mais ser possível, realizado pelo melhor cineasta vivo ( americano ou não ). Como nos seus melhores filmes, Scorsese se vale do máximo de recursos expressivos específicos da linguagem cinematográfica. Assim poderemos ter, por exemplo, câmera lenta e câmera acelerada, gerando significantes inusitados e potentes. 




- “A Árvore dos Frutos Selvagens”- Nuri Bilge Ceylan confirma ser o melhor cineasta poeta e filósofo do Cinema em atividade. Na história de um filho que quer ser escritor e um pai professor decadente, atolado em dívidas, temos comentários bastante pertinentes sobre nossa civilização. É o regional que se faz universal. 




- “Dor e Glória”- O mais autobiográfico dos filmes de Almodóvar, mas se dando na forma de uma auto-ficção cinematográfica, como “Felline 8 ½” de Federico Fellini e “Fanny e Alexander” de Ingmar Bergman. E como sou homossexual, amante desde sempre do Cinema, vindo de família de poucas posses, minha identificação foi total. Antonio Banderas nos entrega um trabalho minucioso, falando bastante com os olhos e enfim, sublime. Melhor Ator no Festival de Cannes 2019.  





- “Parasita”- A luta de classes no Cinema como poucas vezes vista, com roteiro desconcertante e bastante imprevisível, pois o diretor flerta com vários gêneros: drama, comédia, agridoce, suspense, terror e até gore. Esta luta lembra uma obra-prima de Claude Chabrol que é “Mulheres Diabólicas (“ La cérémonie” -1995). Mas aqui a referência maior é Alfred Hitchcock. Não há mistura de gêneros. Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, Globo de Ouro 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. 




- “Cafarnaum”- Logo de início tomamos ciência: diante de um juiz e dos pais, um garoto processa estes. Motivo: o colocaram no mundo sem as menores condições de sustentá-lo. O trabalho do ator não profissional Zain Al Rafeaa como o menino Zain, com uma consciência crítica absurda para sua idade, é fenomenal. A autenticidade da ambientação do filme é soberba, assim como a direção de Nadine. Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2018. 




- “A Favorita”- Assim com em “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Servo Sagrado” (2017), Yorgos Lanthimos nos entrega um filme desconcertante e tremendamente original onde duas mulheres disputam o leito e os favores de uma rainha, bem como a capacidade de tomar decisões por ela, que se mostra bastante débil por problemas que teve, o principal deles foi ter  sofrido vários abortos, que na fantasmagoria criada pelo diretor é compensada com a presença de vários coelhos. O desfecho, bastante intrigante, representa uma vitória de Pirro (quem vence é quem perde....) e isto é representado num plano sequência paciente bastante ousado e criativo, com belas e significativas fusões. Oscar de Melhor Atriz 2019: Olivia Colman 




- “Assunto de Família” - Uma família bastante pobre ( atenção, vários spoilers ) vai nos mostrar que não são os laços sanguíneos os que mais importam. Aqui ninguém é parente de sangue de qualquer outro, mas mesmo numa vida de marginalidade, onde supermercados, por exemplo, são roubados, há graus de afetividade comoventes e espaços para solidariedade. E se prestarmos bastante atenção, veremos que com a intervenção do que chamamos “a sociedade”, vamos ter um desfecho dos mais tristes do Cinema. Uma criança será jogada às feras que são os seus pais.Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018. 





- “Era Uma Vez Em...Hollywood” – Promovendo o encontro entre o que se chama a Velha Hollywood e a Nova Hollywood datada por 1969, o belíssimo roteiro de Quentin Tarantino faz a mais bela homenagem que a memória de Sharon Tate poderia ter. Leonardo DiCaprio e Brad Pitt estão excelentes como o ator, antes de prestígio,  que já não encontra o seu lugar, se embebeda e  o seu dublê, bastante estoico, respectivamente. 
E como levantam falsas polêmicas! Para correta irritação de Tarantino, em Cannes, na coletiva,  jornalistas mulheres reclamaram que Margot Robbie ( Sharon Tate ) pouco fala em relação “aos homens”. Só que a personagem é sempre mostrada com bastante carinho. E temos sequências belíssimas,  como a do Cinema em que Sharon ri bastante e se enternece assistindo a si mesma,  numa comédia com Dean Martin, bastante satisfeita por ver a plateia rir. Globo de Ouro 2020 de Melhor Filme Comédia ou Musical, Melhor Ator Coadjuvante ( Brad Pitt) e Melhor Roteiro.




- “Coringa”-  Não é o filme que é tóxico. É a realidade que vivemos em todos os recantos que que se tornou ou está se tornando tóxica. O enlouquecimento progressivo de Arthur Fleck, depois de tantas decepções e humilhações,  até tornar-se o Coringa,  é um forte agente catalizador de um caos apocalíptico. O desempenho de Joaquin Phoenix é algo de outro mundo. E mais um dos trunfos do filme para fazê-lo um triunfo é que o roteiro tem bastante paciência para construção da psicologia do protagonista. Globo de Ouro 2020 de Melhor Ator Joaquin Phoenix. 




- “Los Silencios” – Nada de ser um filme de terror e/ou suspense. Aqui mortos e vivos convivem com poética naturalidade na região da Tríplice Aliança ( Brasil,Argentina e Uruguai ), um não lugar, de onde querem expulsar os viventes que ali se estabeleceram. Com efeitos simples,  constrói-se um desfecho marcante e bastante poético. Melhor Direção (Beatriz Seigner) e Melhor Filme pela Crítica da Abraccine no 51º Festival de Brasília.




- “A Vida Invisível”- A masculinidade tóxica, passada de geração para geração, mostrando como o filme ainda ecoa forte ainda hoje, é tal ,  que a irmã Guida expulsa de casa por ser mãe solteira, acaba tendo uma vida mais plena ( ou menos árdua ) do que a irmã Eurídice que se casou e teve dois filhos, seguindo ditames patriarcais. A direção de arte que faz da obra um melodrama tropical (conforme Karim ) é um espetáculo à parte.Melhor Filme da Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2019. 




- “Synonymes”- Um jovem israelense abandona Israel e chega em Paris disposto a se tornar francês. Para tal carrega um dicionário para todo canto, para aprender novas palavras, sinônimos exatos e até inexatos. Seus intentos vão esbarrar numa sociedade que não é civilizada como pensava e no abismo que o separa de um casal que passa a ser amigo. A linguagem cinematográfica empregada remente algumas vezes à Nouvelle Vague, principalmente na exploração da voz em off. Insatisfação com onde estamos e falta de perspectivas concretas para onde queremos ir, já está se tornando quase que parte da condição humana. O desfecho é agudo, com sentimentos bastante contrastantes brigando fortemente, com sons ecoando até mesmo depois com a tela escura. Urso de Ouro do Festival de Berlim 2019. 




- “Vidro”-  Isolado “Vidro” (2019) é ótimo filme, mas formando uma Trilogia com “Corpo Fechado” (“Unbrekable”- Inquebrantável-2000) e “Fragmentado” ( 2016), onde tudo revisto passa a fazer mais sentido, com um filme alimentando o outro, temos uma obra-prima de terror e suspense, com personagens bastante originais, numa obra bem distante dos heróis da Marvel e DC e que dialoga com estes filmes de forma crítica, quase que sarcástica.   

   

b) Mais Melhores Filmes, Sem Ordem de Preferência 

1- “Rainha de Copas” (2019) de May el-Toukhy

2- “Pássaros de Verão” (2018) de Cristina Gallego/Ciro Guerra 

3- “O Professor Substituto” (2018) de Sebastian Marnier 

4- “Amanda” (2018) de Mikhaël Hers 

5- “Quem Você Pensa Que Sou” (2018) Safy Nebbou

6- “A Revolução Em Paris” (2019) de Pierre Schoeller 

7- “Estou Me Guardando Pra Quando o Carnaval Chegar (2018) de Marcelo Gomes 

8- “O Paraiso Deve Ser Aqui” (2019) de Elia Suleiman 

9- “Aqueles Que Ficaram” (2019) de Barnabás Tóth

10- “Dumbo” (2019) de Tim Burton

11- “Aladdin” (2019) de Guy Ritchie 

12- “Dois Papas” (2019) de Fernando Meirelles 

13- “No Portal da Eternidade” (2018) de Julian Schnabel 

14- “Guerra Fria” (2018) de Pawel Pawlikowski

15- “Divino Amor” (2018) de Gabriel Mascaro 

16- “Green Book- O Guia” (2018) de Peter Farrelly 

17- “Border” (2018) de Ali Abbasi 

18- “Retablo” (2017) de Álvaro Delgado-Aparicio 

19- “Climax” (2018) de Gaspar Noé 

20- “Em Trânsito” (2018) de Christian Petzold 

21- “Nós” (2019) de Jordan Peele 

22- “Adam” (2019) de Maryam Touzani

23- “O Anjo” (2018) de Luiz Ortega 

24- “Estação do Diabo” (2018) de Lav Diaz 

25- Se a Rua Beale Falasse” (2018) de Barry Jenkins

26- “A Mula” (2018) de Clint Eastwood 

27- “Todos Já Sabem” (2018) de Asghar Farhadi 

28- “Dogman” (2018) de Matteo Garrone 

29- “Um Amor Inesperado” (2018) de Juan Vera 

30- “Um Ato de Esperança” (2017) de Richard Eyre

31- “Um Banho de Vida” (2018) de Gilles Lellouche 

32- “Duas Rainhas” (2018) de Josie Rourke

33- “Vidas Duplas” (2018) de Olivier Assayas

34- “Amor Até as Cinzas” (2018) de Jia Zhangke

35- “Mormaço” (2017) de Marina Meliande 

36- “Varda por Agnès” (2019) de Agnès Varda 

37- “Memórias da Dor” (2017) de Emmanuel Finkiel

38- “Graças a Deus” (2019) de François Ozon 

39- “Cyrano Mon Amour (2019) de Alexis Michalik

40- “Inocência Roubada” (2019) de Andréa Bescond 

41- “No Coração do Mundo” (2018) de Gabriel Martins/ Maurilio Martins

42- “Simonal” (2018) de Leonardo Domingues 

43- “Vermelho Sol” (2018) de Benjamin Naishtat 

44- “Em Guerra” (2018) de Stéphane Brizé

45- “A Odisseia dos Tontos” (2019) de Sebastian Borenztein 

46- “A Costureira dos Sonhos” (2018)  de Rohena Gera

- “Climax”- É magnificamente realizado por Gaspar Noé e interpretado pelo conjunto de jovens atores, onde só um deles é profissional ( no caso a atriz Soufia Boutella ). Na comemoração de um ensaio final de uma coreografia bastante pop e dançante num galpão bastante isolado na neve, alguém coloca LSD e/ou afins na sangria e as conversas, coreografias e as pessoas começam a ficar cada vez mais endoidecidas, conforme vão bebendo, umas mais outras menos. Quem terá colocado? Até onde irão as consequências? Um filme hipnotizante sobre uma juventude que não vê futuro saudável para si. Estão certos?  Um dos efeitos iniciais é um jogo da verdade que surge que mostra ausência de solidariedade, competição e muito machismo. Melhor Filme da Quinzena dos Realizadores de Cannes 2018.




2) Os Filmes Decepcionantes. Eu esperava mais e poderiam ter dado mais. Havia elementos para isto. Não é uma questão simplesmente de desejar que o diretor realize o “nosso filme”. Lista sem ordem de decepção.   

1- “Bacurau” (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles 

2- “Uma Mulher Alta” (2019) de Kantemir Balagov 

3- “E Então Nós Dançamos” (2019) de Levan Akin 

4- “O Rei Leão” (2019) de John Fraveau 

5- “Vingadores: Ultimato “(2019) de Anthony Russo 

6- “Gloria Bell” (2019) de Sebastián Lielo 

7- “Adeus à Noite” (2019) de André Téchinè 

8- “Hebe- A Estrela do Brasil” (2018) de Maurício Farias 

9- “Brooklyn-Sem Pai Nem Mãe” (2019) de Edward Norton 

10- “Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia” (2019) de Teona Strugar Mitevska

11- “O Homem Que Matou Dom Quixote” (2018) de Terry Gilliam

12- “Vice” (2018) de Adam McKay 

13- “Poderia Me Perdoar?”  (2018) de Marielle Heller

14- “Minha Fama de Mau” (2018) de Lui Farias 

15- “Querido Menino” (2018) de Felix von Groeningen  

16- “Um Dia de Chuva em Nova York” (2018) de Woody Allen 

17- “Minha Obra-Prima” (2018) de Gastón Duprat 

18- “Três Faces” (2018) de Jafar Panahi 

19- “O Mau Exemplo de Cameron Post” (2018) de Desiree Akhavan

20- “O Gênio e o Louco” (2017) de Farhad Safiria 

21- “A Sombra do Pai” (2019) de Gabriela Amaral Almeida 
22- “Entardecer” (2018) de László Nemes 

23- “A Grande Dama do Cinema” (2019) de Juan José Campanella
24- “Kardec” (2018) de Wagner de Assis 

25- “Tolkien” (2019) de Dome Karukoski 

26- “Rocketman” (2019) de Dexter Fletcher 

27- Aspirantes” (2015) de Ives Rosenfeld  

28- “Obsessão” (2019) de Neil Jordan 

29- “Deslembro” (2018) de Flávia Castro 

30- “Neville D’Almeida-Cronista da Beleza e do Caos” (2019) de Mario Abbade 

31- “Cézanne e Eu” (2016) de Daniele Thompson 

32- “Yesterday” (2019) de Danny Boyle 

33- “Peterloo” (2018) de Mike Leigh 

34- “Greta” (2019) de Armando Praça 

35- “Dowton Abbey” (2019) de Michael Engler 

- “Bacurau”- É um show de direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles .Mas ao contrário de “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (ambos de Glauber Rocha), como alegoria política, deixa bastante a desejar, com vários furos. Ianques chefiados por um alemão nazistóide americanizado (“com mais anos nos EUA do que na Alemanha” )  que matam por prazer, por esporte, para ganhar pontos, é algo bastante simplório. A comunidade ameaçada de extinção tem laços de fraternidade idealizados. Não há traço de machismo, homofobia, racismo, aversão a matador de aluguel ( seus serviços foram pra quem? ). Até uma espécie de Lampião trans surge, um poder (miliciano ? ) importante para a comunidade. Todos convergem para a resistência. Mas ao contrário do que dizem os diretores, “Bacurau” não é apenas um filme sobre resistência. É sobre vingança também. E como! 
O encontro de Udo Kier cara a cara com Sônia Braga é realmente um frisson de roteiro. Mas é dramaturgicamente inconsistente. A médica se ofereceu em holocausto, com os outros habitantes escondidos, para apresentar os comes e bebes típicos? Ele a polpa e diz aos chefiados, por rádio, que não mata mulheres. Mas o chefão destas matanças todas (incluindo crianças ) teria esta característica, estes escrúpulos? 
Na TV vemos noticiado que em São Paulo pessoas estão fazendo filas para ser assassinadas. Mas como? Isto enfraquece a noção de Bacurau ser microcosmos, laboratório para destruição.  
E ao final incluir em off, entre as vítimas deste “mal absoluto” que acometeu a comunidade, Marielle Franco tudo bem. Faz todo sentido. Mas Marisa Letícia, mulher de Lula, que morreu de causas naturais, é demais. Pura panfletagem, maniqueísmo. É forçar a barra. Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2019 ( dividido com "Os Miseráveis" de Ladj Ly.



- “Uma Mulher Alta” – Os traumas de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial são terríveis, consideráveis. O problema do filme, por mais bela que seja sua estética e admirável o trabalho dos atores, é nos passar o incômodo de carregar demais nas tintas. Há um clima quase que doentio criado onde até um médico amigo que pratica eutanásia em quem pede, precisa, é chantageado para fazer um filho na “mulher magra e grande”, para que a criança seja entregue à outra que é amiga. Detalhe: esta havia perdido o filho pois a amiga que dele cuidava, numa crise de paralisia, acaba o sufocando...... Prêmio de Melhor Direção da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2019. 


        

3) Os Piores Filmes do Ano Sem Ordenação de Valor 

1- “Cats” (2019) de Tom Hooper

2- “Imagem e Palavra” (2019) de Jean-Luc Godard 

3- “Suspíria- A Dança do Medo” (2018) de Lucas Guadagnino 

4- “Vision” (2018) de Naomi Kawase 

5- “Midsommar- O Mal Não Espera a Noite” ( 2019) de Ari Aster

6- “Ad Astra-Rumo às Estrelas” (2019) de James Gray 

7- “A Camareira” (2018) de Lila Avilés 

 “Ad Astra-Rumo às Estrelas”- Há sequências de aventuras que não combinam com a proposta intimista do filme. E as questões filosóficas, com o tratamento que recebe aqui, passam longe do que podemos encontrar em “Solaris” de Andrei Tarkovski e “2001-Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick. 




4) Festival do Rio 2019

Os Melhores Filmes Vistos no Festival do Rio 2019, em Ordem de Preferência. 

1- “Retrato de Uma Jovem em Chamas” (2019) de Céline Sciamma 

2- “Uma Vida Oculta (2019) de Terrence Malick 

3- “Os Miseráveis” (2019) de Ladj Ly

4- “Synonymes” (2019) de Nadav Lapid 

5- “Você Não Estava Aqui (2019) de Ken Loach 

6- “O Paraiso Deve Ser Aqui” (2019) de Elia Suleiman

7- “O Diabo Entre as Pernas” (2019) de Arturo Ripstein 

8- “Pacarrete” (2019) de Allan Deberton 

9- “Vitalina Varela” (2019) de Pedro Costa

10- “Piedade” (2019) de Cláudio Assis 

11- “Fim de Festa” (2019) de Hilton Lacerda

12- “O Jovem Ahmed” (2019) de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne 

- “Uma Vida Oculta”-  Um austríaco religioso enfrenta até mesmo a visão de um padre e um bispo e não abre mão dos seus imperativos de consciência. Seu Deus não permite de modo algum que apoie um louco assassino como Hitler. Na sua comunidade camponesa ele e sua família passam a ser discriminados. Convocado ele se recusa a fazer a saudação característica a Hitler. Preso, passa por privações, violências e humilhações. Mas sua fé e o amor da mulher e filhos, o farão resistir. Baseado numa história real temos um material perfeito para que o genial Terrence Malick exercite o seu estilo, onde, dentre outros elementos, há bastante o uso da voz em off para focar tempos diversos da narrativa e as imagens exalam transcendência. É como se elas captassem o não visível. 


   

Os Decepcionantes do Festival 

1- “Mattias e Maxime” (2019) de Xavier Dolan 

2- “Frankie” (2019) de Ira Sacks 

3- “Family Romance, LTDA” (2019) de Werner Herzog  

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Homenagem Aos 50 Anos de “Mulheres Apaixonadas” (1969) de Ken Russell, Um dos Clássicos do Erotismo na História do Cinema, Dentre Outros Temas Abordados .

1- Homenagem Aos 50 Anos de “Mulheres Apaixonadas” (1969) de Ken Russell, Um dos Clássicos do Erotismo na História do Cinema, Dentre Outros Temas Abordados. 













Sinopse 

Anos 20, Beldover, cidade mineira da Inglaterra. Ao se retratar dois interessantes casos de amor também é mostrado os relacionamentos, personalidades e modo de pensar de duas mulheres e dois homens. Gudrun Brangwen (Glenda Jackson) encara relacionamentos como algo de praxe, enquanto que sua irmã, Ursula Brangwen (Jennie Linden), vê o amor como algo puro e simples, uma ligação permanente. Gudrun se envolve com Gerald Crich (Oliver Reed), que é um proprietário de mina e encara um relacionamento como uma posse. Já Ursula se relaciona com Rupert Birkin (Alan Bates), um inspetor escolar que é o melhor amigo de Gerald e tenta definir o amor entre homem e mulher e entre homem e homem. Enquanto Rupert e Ursula têm um terno caso de amor, Gerald e Gudrun tem uma relação tempestuosa. Mas Rupert precisa de outro tipo de afeto.

Elenco de “Mulheres Apaixonadas”
Alan Bates (I)  Rupert Birkin
Alan Webb  Thomas Crich
Alex 'Alien' Russell
Barrie Fletcher  Miner
Brian (I) Osborne  Miner
Catherine Willmer  Mrs. Crich
Charles Workman  Gittens
Christopher Ferguson  Basis Crich
Christopher Gable  Tibby Lupton
Eleanor Bron  Hermione Roddice
Glenda Jackson (I)  Gudrun Brangwen
James Laurenson  Minister
Jennie Linden  Ursula Brangwen
Leslie Anderson  Barber
Michael Garratt  Maestro
Michael Gough (I)  Tom Brangwen
Michael Graham Cox  Palmer
Nike Arrighi  Contessa
Norma Shebbeare  Mrs. Brangwen
Oliver Reed (I)  Gerald Crich
Fonte: https://filmow.com/mulheres-apaixonadas-t5439/

Vide “Mulheres Apaixonadas”- Filme Completo – com legendas em espanhol,  no capítulo 2, item  6. 

“Mulheres Apaixonadas” é considerada uma das melhores adaptações da Literatura para o Cinema, no caso do livro homônimo de D. H. Lawrence, um dos mais polêmicos escritores da Literatura Universal.  

Ainda é tido como um dos filmes mais eróticos já realizados. 
Há uma sequência antológica, onde Gerald (Oliver Reed) trava uma luta corporal com Rupert (Alan Bates), ambos nus, com forte acento homoerótico, principalmente ao seu término. (Vide item 5 do capítulo 2 )














Como Pasolini, D. H. Lawrence era alérgico à sociedade industrial. 
Gerald, proprietário de Mina, vai sentir estas contradições na própria pele, além do fato de, ao contrário de Rupert, não saber o que fazer dos sentimentos homoeróticos que viu em si despertados.
Esses sentimentos associados ao fato de estar bastante confuso em relação ao que o atrai em Gudrun, uma mulher bastante libertária e provocadora nesta era de moral ainda vitoriana, vão conduzi-lo à um processo de autodestruição. 

Certos filmes tem o poder de mudar vidas e assim, indiretamente, o mundo muda, quando as pessoas passam o que sentem à outras. 
Tendo visto numa sessão de Cinema de Arte do Cinema do CTA ( Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos) em 1975, saí completamente chapado com a força estética do filme e com o que, com dificuldade, chamamos de conteúdo, pois a rigor temos um amálgama de forma e conteúdo em toda obra de arte. 

Um grande amigo que também era gay, comungou do meu entusiasmo.

Mas ao me aproximar de “amigos” meus iteanos ( alunos do ITA como eu) integrantes do CASD ( Centro Acadêmico Santos Dumont), para o qual eu trabalhava no Jornal Mural, fazendo uma parte de Cultura sozinho, parte mais lida pelos alunos, de modo geral, do que a de Política  ( e me expunha bastante, em plena Ditadura Militar, pois era eu que o colocava em murais nos mais variados lugares do ITA), .........recebi de cara uma grande ducha d’água fria, que me marcou para sempre e não me senti nem um pouco à vontade para expressar minhas emoções. 

Este pessoal, autoproclamado de esquerda, fazia pilhéria de “Mulheres Apaixonadas”: 

“São dois burgueses tão entediados com a vida, que resolvem então $#@%¨&* .....”

Como se a homossexualidade numa pessoa não fosse algo imanente, com que se nasce e sim pudesse vir como simples produto do tédio, da preguiça. 

Assim duas lições ficaram para sempre:

1- Deveria encarar cada vez mais minha homossexualidade de frente. Negligenciar pode levar a um caminho de baixa estima e autodestruição. 

2- Sou atraído por ideais de justiça e de quebras de grandes desigualdades sociais, ditos de esquerda. Mas nunca me filiei a um partido político e sempre tive um pé dentro, um pé fora, pois sei como há pessoas de esquerda autoritárias, cegas, fanáticas, obtusas em relação aos costumes, homofóbicas etc. 

O que aprendi melhor mais tarde quando entendi Cuba e sua revolução pelos olhos do escritor Reinaldo Arenas,  através de seu essencial “Antes Que Anoiteça”(1992), Vide Capitulo 2, item  10, dentre outras obras e filmes.  













Alan Bates como alter-ego de D.H. Lawrence em "Mulheres Apaixonadas" (1969) de Ken Russell





2- Links e Matérias Associados.

1- “Mulheres Apaixonadas “  – Trailer 



Título original: Women in Love
País de produção: Inglaterra
Ano de produção: 1969
Gênero: Drama
Direção: Ken Russell
Elenco: Glenda Jackson, Alan Bates, Oliver Reed, Jennie Linden
Idioma: Inglês
Áudio: Dolby Digital 2.0
Legendas: Português
Formato de tela: Widescreen anamórfico 1.66:1
Tempo de duração: 131 min.
Região: 4
Cor: Colorido 

2- http://www.adorocinema.com/filmes/filme-3069/creditos/  - Créditos 

3- https://pt.wikipedia.org/wiki/Women_in_Love
“Mulheres Apaixonadas” – Wikipédia  

4- https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/mulheres-apaixonadas/
Blogs 
Luiz Zanin
Cinema, cultura & afins
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.
Mulheres Apaixonadas       
Luiz Zanin Oricchio
11 de dezembro de 2011 

O diretor inglês Ken Russell (1927-2011), morto em 27 de novembro, teve com Mulheres Apaixonadas o seu primeiro “sucesso de escândalo”, como os franceses se referem a obras explosivas pelo lado polêmico. Revendo-se o filme, lançado agora em DVD, podem-se compreender os motivos. Tanto quanto uma adaptação deva ser fiel ao seu original literário, Mulheres Apaixonadas o é – pelo menos em relação ao espírito desta que é uma das obras mais conhecidas de D.H. Lawrence (1885- 1930).

Para compreendê-la, precisamos nos lembrar do quanto era puritana e falsamente moralista a Inglaterra do tempo de Lawrence. Questões da sexualidade eram empurradas para baixo do tapete e, quem se atrevia a trazê-las de volta à sala de visitas, como era o caso de Lawrence, via-se logo execrado pela moral média. Ele falava dessas coisas que não se dizem nos bons salões. No limite, se pensam, mas em nome do bom gosto, devem ser caladas. 

Lawrence punha tudo a nu – com a devida licença da expressão.
Russell, em plena explosão dos costumes do final dos anos 1960, começo dos 1970, retoma o texto e sua têmpera explosiva. Não traz a história para a o seu tempo contemporâneo, mas a deixa lá atrás, nos anos 1920. Faz um filme de época para contar a história de duas irmãs que se relacionam com dois amigos íntimos.

O cinema de Russell, já se sabe, é super saturado. De cores e de interpretações intensas, beirando o exagero; às vezes o grotesco. Não chega aqui ao paroxismo de Os Demônios, baseado em Aldous Huxley, mas passa perto. Mulheres Apaixonadas é intensamente erótico, paradoxal, assertivo. Por baixo da chamada fleuma britânica – um clichê antropológico como outro qualquer – encontra uma sociedade em brasas. Pegando fogo. Literalmente.
Glenda Jackson interpreta Gudrun, essa escultora fogosa. Sua irmã é Ursula (Jennie Linden), uma professora bastante mais convencional, ma non troppo. As duas se relacionam com dois amigos íntimos, Gerald (Oliver Reed) e Rupert (Alan Bates). Há, em especial por parte de Gerald, um desajuste em relação ao amor e ao desejo. Por vezes parece apaixonado por Gudrun; noutras, não pode amá-la. Mas também não suporta vê-la com um rival. O bicho homem é um paradoxo. Gerald encarna essa contradição. Do ponto de vista feminino, Gudrun é essa mesma ambivalência, simétrica, que vai da vontade de estabilidade à sua negação, o desejo da aventura. Essas tensões tornam o relacionamento explosivo.

Mas, claro, não são tanto as ideias em debate que fizeram a fama deste filme, mas algumas cenas francamente ousadas para a época, embora hoje, com a banalização da sexualidade audiovisual, não pareçam tão excepcionais assim. Mas, pela intensidade com que são vividas, em especial por Glenda Jackson e Oliver Reed, o ator-fetiche de Russell, ainda nos impressionam.

O filme ficou famoso também por uma longa sequência de luta entre os dois homens, completamente nus. Cenas de um realismo extremo, uma violência que confina com a ternura, em demonstração de amizade viril paradoxalmente marcada por uma pegada homoerótica. Se deu o que falar em 1969, essa sequência atravessa o tempo e se revela muito forte ainda hoje. Não envelheceu.

Como, de maneira geral, não parece de maneira nenhuma antiquada essa versão bastante calorosa do clássico de D.H. Lawrence. Talvez seja um dos pontos sólidos da carreira de Ken Russell, um contestador que teve seus altos e baixos, mas nunca deixou sua lâmina sem o gume afiado. Esteticamente, o filme não parece datado. E suas ideias continuam valendo. Ambientado na Inglaterra conservadora da década de 20 do século passado, ainda têm o que dizer para os pseudoliberais do início do século 21.

(Caderno 2)

5- Women In Love -- Wrestling Scene (1969)- A Luta Corporal entre Gerald (Oliver Reed) e Rupert ( Alan Bates ) 


6- https://www.youtube.com/watch?v=VwbovtEychM
“Mulheres Apaixonadas”- Filme Completo – Com Legendas em Espanhol. 

7- Alan Bates *




Tribute * 1934-2003 was an English actor who came to prominence in the 1960s, a time of high creativity in British cinema, when he appeared in films ranging from the popular children's story Whistle Down the Wind to the "kitchen sink" drama A Kind of Loving. He is also known for his performance with Anthony Quinn in Zorba the Greek, as well as his roles in King of Hearts, Georgy Girl, Far From the Madding Crowd, and The Fixer, in which he received an Academy Award nomination for Best Actor. In 1969, he starred in the Ken Russell film Women in Love with Oliver Reed and Glenda Jackson.

8- Still Dangerous – The Films of Ken Russell
When the dust has settled, and his envious detractors are long forgotten, Ken Russell may well be recognised as the greatest and most original of all British Filmmakers. – Alex Cox




9- http://ernestobabino.blogspot.com/2007/09/entrevista-ken-russell.html
Impure Film 
Artigos de Blog Sobre Cinema 
Terça-feira, 25 de setembro de 2007 
Entrevista: Ken Russell
(Optando pela tradução automática do espanhol, haverá erros inerentes a este processo)

10- https://pt.wikipedia.org/wiki/Reinaldo_Arenas
Reinaldo Arenas - Wikipédia  

11- https://pt.wikipedia.org/wiki/Antes_que_anochezca
“Antes Que Anochezca”- Wikipédia 

(Antes que Anochezca (publicado em português como Antes que Anoiteça) é um livro autobiográfico de autoria do escritor cubano Reinaldo Arenas, escrito no exílio, quando o autor já estava gravemente doente.

Publicado em 1992, o livro relata as transformações sociais em Cuba antes e depois da revolução de 1959. Perseguido por ser homossexual e não concordar com as regras para a produção cultural revolucionária na ilha, Arenas pretendeu escrever uma crítica à ditadura castrista.


Foi adaptado para o cinema em 2000, e seu autor foi interpretado por Javier Bardem — papel que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.)







12- http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/12/a-voz-incomoda-de-reinaldo-arenas-ressurge-20-anos-apos-sua-morte.html
A voz incômoda de Reinaldo Arenas ressurge 20 anos após sua morte
Agencia EFE

Carmen Sigüenza.

3- Este texto a seguir foi originalmente publicado no Facebook, mas como meus seguidores do Blog não são necessariamente da rede social e ainda para dar mais elementos sobre a grandeza da obra de Ken Russell, deixo ele gravado aqui.   

Amor Esculpido de Forma Selvagem 

“O Messias Selvagem” (1972) de Ken Russell 



Num período que antecede a primeira guerra mundial, Henri Gaudier (Scott Anthony) é um talentoso escultor de apenas 18 anos que vive na capital francesa, onde conhece a encantadora Sophie Brzeksa (Dorothy Tutin), uma mulher que almeja ser escritora, já bem madura, com aproximadamente o dobro da idade dele. 

Perdidamente apaixonado, o rapaz inicia um relacionamento platônico e emocionalmente intenso com a senhora polonesa. 
Ela começa a influenciar os trabalhos e a vida do artista, até que ambos decidem partir para Londres em busca de reconhecimento para suas obras, além da sobrevivência propriamente dita, seja como for.

Baseado no livro de mesmo nome de H. S. Ede, temos um autêntico filme autoral de Ken Russell.

Por ele, a relação sairia do platonismo, mas ela não quer. Diz que só se casará com ele, depois que for montada uma ampla exposição com sua obra. 

Temos aqui as extravagâncias que aparecem em muitos filmes do diretor/autor (uma das exceções é o clássico “Mulheres Apaixonadas" (1969), um filme relativamente plácido embora haja emoções turbulentas), mas estas têm muito a ver com a mente fervilhante de Henri. 

Há como um equivalente visual e sonoro para as grandes inquietações deste jovem e iconoclasta artista, já com falas messiânicas, “definitivas”, sobre arte e vida.

Mas Ken Russell é um cineasta bastante polêmico. Onde enxergo explosões de criatividade, como as sequências ao ar livre com Henri montado em estátuas, no Louvre sobre uma enorme escultura, lançando panfletos, ou até mesmo catando flores caídas numa linha de um trem que se aproxima etc, outros podem ver histeria narrativa. 

Nem só de neo-realismo, realismo, naturalismo e afins deve viver o Cinema. Fantasias de toda ordem, que não precisam ser escapistas (tendo muito o que dizer ) são muito bem vindas. 
Num plano maior temos filmes de Fellini. Num tom menor os de Tim Burton, Terry Gilliam, Serguei Paradjanov, alguns de Spielberg e o que está em questão: Ken Russell. 

Todos com seus universos bem particulares, autorais. 
Do que chegou até a mim, em termos de fortes fantasias integradas magnificamente às histórias, os pontos mais elevados de Ken Russell são o barroquíssimo “Os Demônios” (1971), com freiras histéricas de desejo pelo sacerdote Grandier ( Oliver Reed ), principalmente a irmã Jeanne ( Vanessa Redgrave), atribuindo-se tudo, comodamente, às artes do demônio e o lisérgico “Tommy” (1975), transposição da ópera rock homônima do The Who, com Roger Daltry como o protagonista. 

Mas Ken tem filmes bastante apreciáveis como “Delírios de Amor” (1970) onde Tchaikovsky (Richard Chamberlain), além dos seus tormentos interiores, sofre forte bulllyng da mulher Antonina ( Glenda Jackson) pela sua homossexualidade.
Assisti “O Messias Selvagem” em DVD da Magnus Opus (DVD Vídeo), comprado pelo Mercado Livre. 

A qualidade da imagem é muito boa. As legendas aparecem nos momentos certos. Pena que não tenham feito boa revisão: há muitos erros de concordância e gênero. Mas nada que impeça a fruição deste filme raro, que se não é uma obra-prima como “Mulheres Apaixonadas”, “Os Demônios”, é muito bom. 

As sinopses apresentadas não correspondem bem ao que vemos pois Sophie, ao modo dela, também tem sua “selvageria”. Não é propriamente nenhum exemplo de equilíbrio. 
O que acontece é que tudo se passa como se dois “desequilibrados”, à margem da sociedade, juntos, se equilibrassem. 


Savage Messiah (Ken Russell) 1972 – Trailer

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ken_Russell
Ken Russell – Wikipédia

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ken_Russell
Henri Gaudier Brzeska – Wikipédia - Vale a pena usar o recurso de tradução.