sábado, 3 de março de 2018

Oscar 2018: Entre o Desejo e a Realidade



1- Oscar 2018: Entre o Desejo e a Realidade


Os comentários sobre “A Forma da Água” serão mais elípticos, pois o filme foi bastante analisado na postagem anterior.
Spoilers serão apresentados.   

MELHOR FILME

"Me chame pelo seu nome"
"O destino de uma nação"
"Dunkirk"
"Corra!"
"Lady Bird: é hora de voar"
"Trama fantasma"
"The Post: a guerra secreta"
"A forma da água"- (Vide 2- a )
"Três anúncios para um crime" (Vide2- b)

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“A Forma da Água” é um filme sem arestas: não há o que tirar nem por.

Já “Três Anúncios Para Um Crime” evidencia alguns problemas de roteiro.
Ao contrário do primeiro, temos aqui um forte calcanhar de Aquiles que é a evolução dramática de um personagem bastante importante que é o policial Jason Dixon (Sam Rockwell ), que  vai de uma extrema crueldade a alguém bastante solidário.

Ele é muito agressivo até nas falas desbocadas;  joga um jovem locador dos espaços para os anúncios odiados, pela janela, quebrando vidros;  põe fogo nestes anúncios vitais para Mildred etc.
Mas quase que, como um passe de mágica, depois de se ver bastante queimado, enfaixado, junto ao jovem ferido no hospital, começa uma mudança de caráter.

Ouvindo um tanto de conversa num bar, Jason provoca o suposto assassino que matou a filha de Mildred estuprando-a e acaba levando até pontapés no rosto, mas de forma premeditada, pois sua intenção é colher amostras de DNA para posterior comprovação.
Mas Sam Rockwell está tão brilhante em seu personagem, que nos faz acreditar nestas fortes restrições de verossimilhança. 









Roman Polanski declarou, com toda razão que “Você deve mostrar a violência como ela é. Não exibi-la com realismo é imoral e nocivo”.

Mas Jason que já nos tinha impressionado por não ter saído tão queimado do hospital, nesta situação de agora com os chutes, vai para casa, se esconde da mãe num cômodo, retira o DNA desejado e está pronto para ser uma nova pessoa, passar a ter novos laços. 

Na chamada vida real estaria, no mínimo, com os dentes todos quebrados ou arrancados. 

Mas este problema apontado por Polanski surge em vários filmes, até mesmo em grandes obras de grandes diretores, como em “Gangues de Nova York” (2002) de Martin Scorsese.  Alguém que fosse tão surrado como o personagem de Leonardo DiCaprio ficaria muito ferido, não se recomporia facilmente como acontece. 

Até mesmo no hiper-realista e bastante cruel “Killer Joe” (2011) de William Friedkin isto acontece. Chris Smith (Emile Hirsch) sofre uma surra homérica. Logo estará refeito com poucas escoriações. 

Um filme que resolve esta questão muito bem é  “O Espantalho” (1973) de Jerry Schatzberg, Palma de Ouro em Cannes, onde Lion (Al Pacino) é muito surrado impiedosamente e surge com o rosto bastante alterado, inchado. 

Francis McDormand para compor a sua Mildred observou desempenhos de várias atrizes, mas não se viu nestes personagens. Aonde foi encontrar inspiração foi em John Wayne. 

Isto fez bem e mal ao seu personagem. Ela construiu uma máscara de uma mulher forte, masculinizada, “machona”, que não foge a  brigas (que nos lembra a policial grávida de “Fargo”(1996) dos irmãos Coen) e que no fundo carrega muita dor pela perda sofrida. Mas esta forte máscara criada se repete muito durante o filme, sendo que Mildred comove mais mesmo quando suas fragilidades, apesar de sua fortaleza, são mais expostas. Algo que não acontece muito.

Mas no conjunto não há como negar que é há um excelente trabalho de Frances. Só não considero extraordinário.  

“Lady Bird- Hora de Voar” (2017) de Greta Gerwig é o bastante superestimado filme deste Oscar. A impressão que passa é que está presente em várias indicações por uma questão de cota para mulheres, da ordem do politicamente correto, algo que se torna cada vez mais urgente hoje para o chamado empoderamento das mulheres, mesmo que a custa da qualidade maior de outros filmes. 

Temos aqui, com uma roupagem nova, uma história contada já várias vezes de alguém inconformado com a sua cidade, o ambiente tacanha e limitado em que vive e sonha em ir para uma grande metrópole, que alargue seus horizontes.  

Até mesmo no esnobadíssimo “Roda Gigante” (2017) de Woddy Allen (que espero que não seja fruto da caça às bruxas instalada contra ele) tem esta sub-trama, mas enriquecida com outros temas importantes. E com Kate Winslet extraordinária, num dos melhores trabalhos de sua carreira, absurdamente ignorada no Oscar.  

Eu não cobriria “Lady Bird” com nenhum quesito e daria privilégios ao tocante “Projeto Flórida” (2017) de Sean S. Baker e ao épico, nada politicamente correto, “Mudbound-Lágrimas Sobre o Mississipe” (2017) de Dee Rees.

No primeiro destacaria a garotinha Brooklyn Prince como Moonee, que mesmo vivendo numa realidade completamente oposta a dos que frequentam a Disney World bem próxima, encontra espaço para bastante momentos lúdicos junto a seu amiguinhos, até que uma realidade com seus imperativos cruéis bate à sua porta. E Broklyn vai mostrar como sabe viver também momentos bem dramáticos. 

Não é uma questão de afago à fofura indicá-la, mas sim de honra ao mérito. 
Já sobre “Mudbound-Lágrimas Sobre o Mississipe” poderiam ter reconhecido, no mínimo Garrett Hedlund, como melhor ator coadjuvante, com seu atormentado Jamie MacAllan, que volta da guerra e não mais se adapta ao seu local de origem. Só vai encontrar apoio no negro Ronsell Jackson (Jason Mitchell), que com ele divide traumas da guerra e está também deslocado junto à família, à região e às relações de trabalho com os brancos.  

Concluindo, o filme que gostaria que ganhasse como Melhor é “A Forma da Água”. Pelos prêmios já recebidos (incluindo Globo de Ouro, Bafta e Associação de Atores – aonde se forma o maior número de votantes) etc deve vencer “Três Anúncios Para Um Crime”. 

Deixando “A Forma da Água” como hors concours, tenho maior predileção por “Trama Fantasma” (2017) de Paul Thomas Anderson, o filme mais bergmaniamo dos últimos anos desde “Sono de Inverno” ( “Winter Sleep”- 2014 ) de Nuri Bilge Ceylan, havendo também elementos de “Rebecca, a Mulher Inesquecível” (1940)) de Alfred Hitchcock, dentre outros que se possa detectar. 

Mas temos no seu conjunto um resultado bastante original de uma relação que se pretende amorosa para se tornar uma incrivelmente sadomasoquista.   
Num terceiro plano ficaria com o espetacular “Dunkirk” (2017) de Cristopher Nolan, num episódio crucial para a história da nossa civilização e no entanto até então negligenciado nos nossos estudos e filmes. 

Curiosamente, neste mesmo 2017, temos “O Destino de Uma Nação” de Joe Wright, que nos mostra Winston Churchill lutando bravamente contra os que queriam um mortal acordo com Hitler, via Mussolini, tendo a ideia quixotesca de promover a retirada de soldados encurralados em Dunquerque através do apoio de pequenos barcos particulares. Mas foi algo como vemos em “Dunkirk” que deu resultado positivos vitais. 

Reiterando: prefiro “A Forma da Água”, mas deve vencer “Três Anúncios Para Um Crime” como Melhor Filme.  

DIREÇÃO

Christopher Nolan, por "Dunkirk"
Jordan Peele, por "Corra!"
Greta Gerwig, por "Lady Bird: é hora de voar"
Paul Thomas Anderson, por "Trama fantasma"
Guillermo del Toro, por "A forma da água"

Aqui tanto meu desejo, como o que deve acontecer coincidem: Guilhermo Del Toro deve ser reconhecido como Melhor Diretor.  

ATRIZ

Sally Hawkins, por "A forma da água"
Frances McDormand, por "Três anúncios para um crime"
Margot Robbie, por "Eu, Tonya"
Saoirse Ronan, por "Lady Bird"
Meryl Streep, por "The Post"

Meu coração bate fortemente pelo magistral trabalho de Sally Hawkins, mas deve ganhar Frances MacDormand. 

ATOR

Timothee Chalamet, por "Me chame pelo seu nome"
Daniel-Day Lewis, por "Trama fantasma"
Daniel Kaluuya, por "Corra!"
Gary Oldman, por "O destino de uma nação"
Denzel Washington, por "Roman J. Israel, Esq"

Daniel- Day Lewis está à altura de receber seu quarto Oscar, mas reconheço o inacreditável desempenho de Gary Oldman. É quem desejo que vença e o que realmente vencerá. 

ROTEIRO ADAPTADO

"Me chame pelo seu nome", de James Ivory
"O artista do desastre", de Scott Neustadter e Michael H. Weber
"Logan", de Scott Frank, James Mangold e Michael Green
"A grande jogada", de Aaron Sorkin
"Mudbound: lágrimas sobre o Mississipi", de Virgil Williams e Dee Rees

Mais um caso em que desejo e realidade se confundem: James Ivory, diretor de tantos filmes memoráveis, por  “Me Chame Pelo Seu Nome”. 

ROTEIRO ORIGINAL

"Doentes de amor", de Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani
"Corra!", de Jordan Peele
"Lady Bird", de Greta Gerwig
"A forma da água", de Guilermo Del Toro
"Três anúncios para um crime", de Martin McDonagh

Gostaria que vencesse Guilhermo Del Toro, mas deve ganhar o Oscar, Jordan Peele por “Corra”.  

Neste quesito, num segundo plano, eu ainda preferiria o roteiro de “Trama Fantasma”.
  
ATRIZ COAJUVANTE

Mary J. Blige, por "Mudbound: lágrimas sobre o Mississipi"
Allison Janney, por "Eu, Tonya"
Laurie Metcalf, por "Lady Bird: é hora de voar"
Octavia Spencer, por "A forma da água"
Leslie Manville, por "Trama fantasma"

Gostaria de ver Octavia Spencer com mais um Oscar na carreira,    mas deve ganhar Allison Janney, favoritíssima. 

Allison poderia estar melhor em “Eu, Tônia” com sua rabugice, sua tirania, sua falta de escrúpulos para que a filha seja uma grande patinadora no gelo, se seu personagem fosse um pouco mais matizado, com alguma mudança em sua curva dramática, mesmo neste gênero de comédia de humor negro. Uma vez construída uma máscara, esta surge do início ao fim.  

ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe, por "Projeto Flórida"
Woody Harrelson, por "Três anúncios para um crime"
Richard Jenkins, por "A forma da água"
Christopher Plummer, por "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, por "Três anúncios para um crime"

Meu preferido, Sam Rockwell, é quem deve ganhar mesmo. 

DIREÇÃO DE ARTE
"A bela e a Fera"
"Blade Runner 2049"
"O destino de uma nação"
"Dunkirk"
"A forma da água"

Prefiro “A Forma da Água” com tudo servindo à perfeição a   narrativa mágica, mas deve ganhar a direção de arte de “Blade Runner 2049”

FOTOGRAFIA

"Blade Runner 2049", Roger Deakins
"O destino de uma nação", Bruno Delbonnel
"Dunkirk", Hoyte van Hoytema
"Mudbound", Rachel Morrison
"A forma da água", Dan Laustsen

Gosto muito do que se consegue em “A Forma da Água”, mas reconheço que em “Blade Runner 2049” temos algo ainda mais deslumbrante. Assim desejo e deve ganhar este filme de Denis Villeneuve.

FILME ESTRANGEIRO

"Uma mulher fantástica" (Chile)
"Corpo e alma" (Hungria)
"O insulto" (Líbano)
"Sem amor" (Rússia)
"The Square: a arte da discórdia" (Suécia)

“120 Batimentos Por Minuto” (2017) de Robin Campillo venceu recentemente o César de Melhor Filme.

 “Além do prêmio máximo, de melhor filme, a produção ainda saiu com os troféus de ator coadjuvante (Antoine Reinartz), ator revelação (Nahuel Pérez Biscayart), roteiro original, trilha original e edição.”-  de O Globo.

Mesmo com todas estas qualidades este filme, bastante envolvente e comovente de 2017, não esteve nem entre os nove indicados inicialmente. 

Este é o melhor filme de língua não inglesa de 2017 que assisti e é quem desejaria que ganhasse o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Dentre os indicados fico com “The Square: a arte da discórdia”. O mundo das artes de hoje, com suas futilidades e imposturas associados é o elemento que detona outras questões importantes. 

O protagonista vai percebendo cada vez mais o vazio em que vive e passa a considerar com maturidade algo antes impensado: a empatia com um jovem que vive em uma pobre periferia. Numa linguagem de Plínio Marcos  poderia ter o título: “Jornada de Um Imbecil Até o Entendimento”. 

Mas o que irá vencer será “O Insulto”. Será um prêmio mais político, ainda que eu admita que o filme tenha muitas qualidades.

Numa era de tantas intolerâncias, discordâncias pesadas, que podem ter fortes consequências nefastas, este filme que trata disto de forma mais frontal, metonímica, vem muito a calhar.  

LONGA DE ANIMAÇÃO

"O poderoso chefinho"
"The breadinner"
"Viva: a vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

Meu predileto e que deve vencer é “Viva: a vida é uma festa”, obra-prima de animação. Tem com todo mérito ganhado todos os prêmios. 

FIGURINO

"A bela a fera"
"O destino de uma nação"
"Trama fantasma"
"A forma da água"
"Victoria e Abdul"

“Trama Fantasma” tem suas qualidades nesta área saltando aos olhos. É meu predileto e quem deve vencer. 

EDIÇÃO DE SOM

"Bady driver"
"Blade Runner 2049"
"Dunkirk"
"A forma da água"
"Star Wars: Os últimos Jedi"

Torço para “Dunkirk” e é quem deve vencer. 

MIXAGEM DE SOM
"Bady driver"
"Blade Runner 2049"
"Dunkirk"
"A forma da água"
"Star Wars: Os últimos Jedi"

Também torço para “Dunkirk” e é quem deve vencer. 

CURTA DE ANIMAÇÃO

"Dear basketball"
"Garden party"
"Lou"
"Negative space"
"Revolting rhymes"

Não tenho conhecimentos para julgar. 

CURTA METRAGEM

"DeKalb elementary"
"The eleven o'clock"
"My nephew Emmet"
"The silent child"
"Watu Wote/All of us"

Não tenho conhecimentos para julgar. 

TRILHA SONORA

"Dunkirk"
"Trama fantasma"
"A forma da água"
"Star Wars: Os últimos Jedi"
"Três anúncios parta um crime"

A trilha sonora de “A Forma da Água” é deliciosa, aliciante e com suspense bem marcado quando necessário. É minha predileta e a que vai vencer. 
  
EFEITOS ESPECIAIS

"Blade Runner 2049"
"Guardiões da Galáxia 2"
"Kong: A ilha da caveira"
"Star Wars: os últimos Jedi"
"Planeta dos macacos: A guerra"

Reconheço os grandes méritos de "Planeta dos macacos: A guerra". Mas os mais brilhantes e belos são os de “Blade Runner 2049”, minha preferência e o que vai vencer. 

EDIÇÃO

"Baby driver"
"Dunkirk"
"Eu, Tonya"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

“Dunkirk” tem edição brilhante. Mas “A Forma da Água” não seria o que é se não tivesse os cortes mais adequados. Nenhuma sequência dura mais do que precisa, nem precisa mais um tempo para ganhar sentido.  

Assim prefiro “A Forma da Água”, mas deve ganhar “Dunkirk”.

MAQUIAGEM

"O destino de uma nação"
"Victoria e Abdul"
"Extraordinário"

O que encontramos em Gary Oldman em “O Destino de Uma Nação” é espantoso. Churchill reencarnado. O ator passava três horas por dia no processo de maquiagem. 

Assim meu predileto é “O Destino de Uma Nação” e é o que vencerá. 

CANÇÃO ORIGINAL

"Mighty river", de "Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi"
"Mystery of love", de "Me chame pelo seu nome"
"Remember me", de "Viva: a vida é uma festa"
"Stand up for something", de "Marshall"
"This is me", de "O rei do show"

“Mighkty river” é arrepiante. Minha predileta e a que vai ganhar. 

LONGA DOCUMENTÁRIO

"Abacus: small enoguh to jail"
"Visages, villages"
"Icarus"
"Last men in Aleppo"
"Strong island"

Só assisti o excelente, criativo e tocante “Visages, villages” e é por quem torço. Mas deve vencer “Last men in Aleppo”, com um tema atualíssimo que precisa ser ainda muito discutido, pois não há solução à vista para as guerras na Síria.  
  
CURTA DOCUMENTÁRIO

"Edith+Eddie"
"Heaven Is a Traffic Jam on the 405"
"Heroin(e)"
"Knife Skills"
"Traffic Stop"

Não tenho conhecimentos para julgar.  

2- Links Associados
  
2- a-http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246009/- “A Forma da Água” – Sinopse – Trailer- Créditos – Crítica AdoroCinema- Críticas Nacionais e Internacionais

Sinopse

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

2- b-  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-245010/- “Três Anúncios Para Um Crime”- Sinopse- Trailer- Créditos- Crítica AdoroCinema- Críticas Nacionais e Internacionais.

Sinopse  

Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Del Toro: A Realidade Nua e Crua e o Cruzamento com o Mundo da Fantasia&Outros Filmes, Contrastes e Paralelos.



1- Del Toro: A Realidade Nua e Crua e o Cruzamento com o Mundo da Fantasia. 

Ler meus comentários após a Sinopse 

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http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246009/- “A Forma da Água” (2017)- Sinopse – Trailer - Créditos - Crítica AdoroCinema- Críticas Nacionais e Internacionais.

Sinopse

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

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A Forma da Água “de Guillermo Del Toro superou todas as minhas expectativas. Selecionado para 13 Oscars tem estatura para ganhar todos.

No roteiro original brilhante, Guillermo Del Toro e Vanessa Taylor, “não dão um ponto sem nó”. Tudo no filme é bastante significativo.
 
Se ao acordar, em sua rotina, Elisa põe ovos para cozinhar e se masturba na banheira isto terá belíssimos efeitos mais adiante; se Giles, homossexual, é expulso de um bar onde ia com frequência, pois seria só um lugar de família, isto vai impulsionar a narrativa; à medida que Forma, homem anfíbio ( Doug Jonas,  sensacional tanto como o fauno a que deu vida para “O Labirinto do Fauno”) vai se sentindo amado por Elisa e a ama, vai se revelar melhor mais tarde, de forma surpreendente, sua natureza;  um espião russo infiltrado que ama o seu país, mas ama também bastante a ciência tem grande peso na história; se Elisa, tendo como vizinho de porta Giles, mora acima de um cinema, onde se exibe filmes bíblicos e é pouco frequentado, isto não é toa, repercutindo numa das sequências mais belas do filme; a história se passar no período bem forte de Guerra Fria  dos anos 60 ( mas com ecos evidentes no presente) é um grande achado, impulsionando a direção de arte num mundo quase que onírico, mesmo com pesadelos e criando forte clima de paranoia etc. 







“A Forma da Água” em sua exposição tanto de cenas bem violentes e de outras que nos lembra contos de fadas, só encontra paralelo em “O Labirinto do Fauno” (2006- Vide  3-a) do próprio Del Toro, onde temos um plano violentíssimo da ditadura de Franco, tendo ainda grupos rebeldes em luta e outro na fantasia, com a garota de 10 anos, Ofélia, seguindo um fauno em seu labirinto e com provas a serem vencidas. 

Tudo contribui, em “O Labirinto do Fauno” para um dos desfechos mais perturbadores e instigantes de um filme já feito. Mas o de “A Forma da Água” também é memorável.

Como os dois filmes tem forte ar de conto de fadas para adultos ( e sabemos que na origem estes não eram para crianças), faz sentido grandes vilões, que não economizam maldades, como o Captain Vidal (Sergi López) que passa a ser padrasto de Ofélia, para repulsa da menina, tanto como o bastante perturbado Richard  Stricland ( Michael Shannan ), chefe do laboratório governamental, que pretende um futuro ingrato para Forma, utilizando-o para angariar superioridade na Guerra Fria.

Mas este lhe arrancou dois dedos, que implantados provocarão suspense se será operação bem-sucedida ou não. Isto o deixou com mais ódio contra a criatura encontrada na Amazônia.  

Nos dois filmes temos um mundo brutal convivendo com um universo da mais pura fantasia. Mas o que diferencia estes dois de muitos outros é que a fantasia faz parte da realidade concreta destas obras. Só o toque de Del Toro para dar consistência a estes mundos que convivem como se fosse um só.  

Tanto um como o outro tem desfecho mágico formidável e bastante poético. Mas se em “A Forma da Água” ele é mais patente, em “O Labirinto do Fauno” é sujeito a  interpretações.

No contexto da guerra fria, mas com fortes ecos no mundo de hoje, com tantos retrocessos, temos em “A Forma da Água” um tom terno com personagens marginais em sociedades que querem os tornar invisíveis, dentre outras mazelas que lhe são impostas.
Estes marginais, movem bastante a narrativa, não estando elencados por paternalismo e impulsos politicamente corretos.

Dentre eles temos a faxineira muda (Elise), a alma do filme tanto quanto o Forma, uma criatura que não seria digna de ser “filha de Deus”; outra faxineira, que é negra, Zelda, passível de racismo e sexismo, que compreende a linguagem dos sinais da colega, trazendo humor para a trama, com Otavia Spencer trabalhando muito bem com seus olhares; o homossexual Giles que sublima solidão, a homofobia que sofre, através da pintura e companhia de Elisa, com quem se comunica também; o casal de negros que é rechaçado do bar pois o espaço já teria sido reservado, num efeito propício para que Giles seja expulso também, depois de pequeno gesto audacioso e por fim temos as posições subalternas desprezadas das faxineiras, enfatizada quando Stricland vai ao banheiro e ignora a presença das duas, nem lhes pedindo para virarem o rosto.  

O elenco todo de “A Forma da Água” está afiadíssimo com a proposta. Mas Sally Hawkins, como a faxineira Elisa muda que se apaixona pelo Forma, está simplesmente sublime, bastante tocante, com expressões faciais com variada gama de emoções, que vai da grande ternura, ao medo, à raiva etc e com movimentos de corpo que falam, que acompanham num certo nível os fabulosos de Forma, que acaba por entender os sinais de fala dela.

Duas sequências antológicas, no mínimo, teremos em função destas posturas e do amor mútuo e do desejo que  surgem. Ela quer mais do que salvar Forma, quer ficar com ele. Mas tem de planejar a partida dele por um canal que o levará até o mar, sendo que a época propícia calculada fica com data marcada num calendário de parede, com folhas retiradas, mas é mais um dado que vai ter peso inesperado na narrativa.

Enfim, “A Forma da Água” pertence ao gênero fantasia que merece ser bem mais valorizado. Este desprestígio se mede também pelo fato de um dos grandes mestres de filmes notadamente do gênero, que é Tim Burton, com seus filmes potentes e inusitados, sendo alguns góticos, ter passado até hoje em branco por Oscars importantes da Academia.

“A Marca da Água” tem potencial para agradar amplas plateias dado os níveis de leitura que tem. Um deles relatado em excelente entrevista com Del Toro (Vide 3-b)  é o fato de os únicos personagens que vivem realmente o presente, com sabedoria, ser Elisa e o Forma.

2- Outros Filmes, Contrastes e Paralelos  

Um filme completamente antípoda destes de Del Toro é “Todo o Dinheiro do Mundo” (2017) de Ridley Scott também em cartaz (Vide 3-c).

Em 1971, em Roma, o neto John Paul Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado, mas o avô John Paul Getty ( Cristopher Plummer), considerado o mais rico homem do mundo de então, se recusa a pagar o resgate milionário.  Toda as consequências virão deste fato, primordialmente, onde o sequestrado pode mudar de mãos, mas ainda uma quantia milionária por ele ainda será desejada.

O filme, baseado em história real, se vale da liberdade das ficções e se torna um grande filme de suspense, onde Cinquanta (Roman Duris) vai desempenhar papel importante como um bandido intermediário entre a mãe Gail Harris (Michele Willians, excelente), o investigador e ex-espião,  homem de segurança de John Paul Getty, Fletcher (Mark Wahlberg) e os sequestradores de roupa alinhada. 

Pelo caráter híbrido de “A Forma da Água” há fortes elementos de suspensão da descrença que aceitamos, mas em “Todo Dinheiro do Mundo não, como em certas perseguições, fugas e encontros que soam fáceis demais.

Um fator que diferencia os dois filmes é que no de Del Toro, temos pessoas cruéis, mas não só, havendo as que são impulsionadas pela generosidade e pelo desejo.  

Mas já na pequena cidade italiana de “Todo o Dinheiro do Mundo”, aonde estão os sequestradores, as maviosidades envolvem habitantes  hostis, medrosos e carentes de generosidade,  policiais comprados e até um médico também para um “trabalho” que Scott poderia ter nos mostrado de forma elíptica, insinuando bem mais do que mostrando.

 (Spoilers entre parêntesis para quem não conhece a história real )

(Depois de tantas negativas no pagamento do resgate, os bandidos resolvem cortar uma orelha do sequestrado e  enviá-la junto com um desenho do jovem com esta parte decepada, condição em que a mãe não terá dúvidas se estão com o filho mesmo).

Diante da monstruosidade, a mãe Gail, hesitante de início  e depois se valendo da imprensa que a assediava, dá um golpe de mestre, encurralando Paul Getty, o sogro.  

Um outro fator um tanto difícil de acreditar se dá quando numa sequência de 7 anos antes, por melhor que seja o trabalho como ator, Christopher Plummer está tão envelhecido como o vimos antes.

Kevin Spacey foi retirado do filme, imediata e   sumariamente, por acusações de assédio sexual sem trabalho da Justiça americana, num quadro perigoso de histeria de mulheres que querem declarar corajosamente os abusos de que foram vítimas (algo necessário e justo), mas agindo como justiceiras, sem respeito às leis, num perigoso caça aos bruxos, um linchamento midiático. E ainda acreditando que basta alguém declarar que foi assediado, isto já é verdade, como se não houvesse pessoas oportunistas.   

Este clima inquisitorial, que almeja até acabar com a carreira de Woody Allen, algo absurdo e delinquente, numa denúncia requentada, quando há anos ele já foi absolvido por duas instâncias em cidades distintas, já mostra tentáculos bem perigosos.
É o caso do Museu de Arte de Manchester que removeu das paredes, a pintura de J.W. Waterhouse (1849- 1917) onde vemos Hilas (o mitológico companheiro de Jasão) tentado pelas ninfas num lago. tudo pelo medo de haver acusações de insuflar pedofilia....

Vide artigo de João Pereira Coutinho sobre esta grande infâmia em 3-d.  

Pois bem, com Kevin Spacey, grande ator tanto como Cristopher, teríamos mais verossimilhança no que diz respeito à idade, trabalhando-se com maquiagem, para avanços e recuos no tempo.Incluindo o fato de poder ser melhor um avô. Cristopher sugere ser mais um bisavô. 

Mas impressiona bastante o pouco tempo em que Ridley Scott refilmou todas as cenas em que Kevin aparecia, mantendo, fora os senões apontados, excelente vigor cinematográfico, com grande atuação de Christopher Plummer, favorito ao Oscar de Melhor Coadjuvante.
     
Em “Viva- A Vida é Uma Festa” (“Coco”-2017), obra-prima de Lee Unkrich e Adrian Molina (Vide 3-e ), estamos no reino da total fantasia em que as animações nos colocam.

O garoto Miguel, de 12 anos, gosta de apreciar música e tocar um violão mexicano típico, numa família que o reprime porque tem trauma histórico desta arte. Um membro distante da família abandou todos pela música.

Por um sortilégio Miguel vai para o mundo dos mortos e  quer encontrar o tataravô músico, para que o ajude, justamente no dia que é um feriado para comemoração deste universo no México.   
Neste novo universo existem valores humanísticos, de mirada até filosófica como o principal (Atenção Spoilers até o fim do parágrafo):  os mortos só morrem verdadeiramente, definitivamente, quando não são mais lembrados nem por uma pessoa neste nosso mundo dos vivos. 

Não é por acaso que Miguel encontra outro universo, esfuziante, pleno de festas, músicas, cores fortes. Mas vai encontrar o debilitado Hector (no original dublado por Gael Garcia Bernal), que além de lhe trazer segredos importantes, urgentemente tem que ser lembrado, por uma filha que ele abandonou.  

O roteiro é pleno de reviravoltas bastante inteligentes, reveladoras e sensíveis, que fazem no conjunto total coerência.

Del Toro no díptico “O Labirinto do Fauno” e “A Marca da Água” (tomara que ele crie mais um formando uma trilogia), numa forte simplificação didática, transita num universo entre “Todo o Dinheiro do Mundo” e “Viva-A Vida é Uma Festa”.

3- Links associados

3- a  
O Labirinto do Fauno” (2006)- Sinopse - Trailer- Créditos

Sinopse

Espanha, 1944. Oficialmente a Guerra Civil já terminou, mas um grupo de rebeldes ainda luta nas montanhas ao norte de Navarra. Ofélia (Ivana Baquero), de 10 anos, muda-se para a região com sua mãe, Carmen (Ariadna Gil). Lá as espera seu novo padrasto, um oficial fascista que luta para exterminar os guerrilheiros da localidade. Solitária, a menina logo descobre a amizade de Mercedes (Maribel Verdú), jovem cozinheira da casa, que serve de contato secreto dos rebeldes. Além disso, em seus passeios pelo jardim da imensa mansão em que moram, Ofélia descobre um labirinto que faz com que todo um mundo de fantasias se abra, trazendo consequências para todos à sua volta.


( Vide Matéria Compacta em 3-f)


3- c-http://www.adorocinema.com/filmes/filme-254521/- “Todo o Dinheiro do Mundo” - (2017) - Sinopse- Trailer- Créditos- Crítica AdoroCinema- Críticas Nacionais e Internacionais.

Sinopse

Itália, 1973. John Paul Getty III (Charlie Plummer) é o neto favorito do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer), um dos primeiros bilionários da história da humanidade. O sequestro do rapaz coloca a sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), em uma corrida desesperada para convencer o ex-sogro a pagar o resgate milionário do filho. Frio, manipulador e mesquinho, Getty irá encarregar o ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg), seu homem de confiança, de descobrir quem e o que está por trás do crime, solucionando o problema sem o desperdício de nenhum centavo de sua fortuna.

Novos Puritanos Não Entendem a Natureza Simbólica da Arte


3-e-  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-206775/- “Viva- A Vida é Uma Festa” (“Coco”- 2017)- Sinopse- Trailer- Créditos- Crítica AdoroCinema- Críticas Nacionais e Internacionais

Sinopse

Miguel é um menino de 12 anos que quer muito ser um músico famoso, mas ele precisa lidar com sua família que desaprova seu sonho. Determinado a virar o jogo, ele acaba desencadeando uma série de eventos ligados a um mistério de 100 anos. A aventura, com inspiração no feriado mexicano do Dia dos Mortos, acaba gerando uma extraordinária reunião familiar.


3- f - Matéria Mais Compacta.

Por Carlos Helí de Almeida / Especial para O Globo 01/02/2018

RIO — A avó, católica fervorosa, tentou até exorcizar o neto por causa do exagerado interesse que o garoto mantinha pelo ocultismo. Ele passava horas desenhando monstros. Adulto, Guillermo del Toro construiu uma filmografia inteira em torno de criaturas de aparência monstruosa, nem sempre malignas, mas que surgem em cena para colocar a Humanidade em xeque. “A forma da água”, que chega nesta quinta-feira aos cinemas como recordista de indicações ao Oscar (foram 13), após receber o Leão de Ouro em Veneza, representa o ápice dessa carreira. E a consagração de um gênero normalmente menosprezado pela Academia.

— O cinema fantástico é o último dos gêneros a ser legitimado por seus pares — diz, por telefone, o cineasta de 53 anos, o único do trio conhecido em Hollywood como “los tres amigos” que ainda não ganhou o Oscar de direção (Alejandro Iñárritu levou por “Birdman”, em 2015, e “O regresso”, em 2016; e Alfonso Cuarón, por “Gravidade”, em 2014).

Ambientado nos anos 1960, “A forma da água” conta a história de uma faxineira muda, Elisa (Sally Hawkins), que se apaixona por uma criatura aquática aprisionada num laboratório do governo. Embora fincada na Guerra Fria, temas como a indiferença pelo outro traçam paralelos com a atual América de Donald Trump.

A trama é inspirada em argumento de Daniel Kraus, que também transformou a história em livro, junto com Del Toro, a ser lançado no fim do mês pela Intrínseca. Poucos dias após as indicações ao Oscar serem divulgadas, o filho do dramaturgo Paul Zindel (1936-2003) veio a público acusar o filme de plágio. De acordo com David Zindel, a história usa elementos de uma peça que seu pai escreveu em 1969, sem lhe dar os devidos créditos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Del Toro.

O que mais o fascina no cinema fantástico?

Dependendo do narrador, é o gênero mais político que existe. Mas, na América Latina, ele ainda é considerado, com frequência, um cinema “menor”. Há preconceito com a fantasia, e o que pretendo com “A forma da água”, “O labirinto do fauno”, “A espinha do diabo”, ou qualquer outro trabalho meu, é usar o fantástico como uma parábola, ou fábula, que permita discutir temas políticos ou históricos de maneira oblíqua, mas potente.

Para além de 'A forma da água': os filmes de Guillermo del Toro
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1- ''A colina escarlate' (2015)
Neste romance gótico, uma escritora descobre que a casa do homem por quem está apaixonada é habitada por aquilo de que Del Toro mais gosta: fantasmas e entidades misteriosas.

2- 'Círculo de fogo' (2013)
A superprodução de US$ 190 milhões não é lembrada tanto pela solidez da história, é verdade. Mas a ação grandiosa e de tirar o fôlego garantiu sucesso e elogios substanciais.

3- 'O labirinto do fauno' (2006)
Del Toro volta à Guerra Civil espanhola num épico fantástico sobre escapismo em meio aos horrores da realidade. É considerado uma obra-prima foi vários críticos de cinema.

4- 'Hellboy' (2004)
Del Toro se aventurou em outra adaptação de HQ, muito elogiado por unir um visual afiadíssimo com boas doses de humor e ação. Ganhou uma continuação em 2008.

5- 'Blade II - O Caçador de Vampiros' (2002)
O Caçador de Vampiros, personagem das HQs da Marvel, ganhou uma continuação superior à original, graças ao estilo impresso pelo cineasta mexicano.

6- 'A espinha do diabo' (2001)
O drama de terror foca num fantasma que assombra um orfanato, servindo de metáfora para uma Espanha pós-Guerra Civil. É uma das obras mais aclamadas de Del Toro.

7- 'Mutação' (1997)
Marcada por conflitos com o estúdio, a estreia de Guillermo del Toro em Hollywood dividiu opiniões, com um conto sobre um inseto criado para matar baratas infecciosas -- mas os bichos se voltam conta a humanidade.

8- 'Cronos' (1993)
Inspirado em clássicos vampirescos, o longa de estreia de Del Toro já mostrou as famosas marcas do diretor: muito sangue, estilo e charme.

Foi por isso que o senhor se dirigiu aos realizadores latinos quando foi premiado em Veneza?

Foi um chamado para que os cineastas da região com vocação para o fantástico não percam a fé no gênero. Alguns dos narradores literários mais potentes da América Latina, como Borges, García Márquez e Juan Rulfo, trabalham o universo do fantástico, e são reconhecidos por isso.
Por que não podemos dar esse passo também no cinema? Temos que abraçar as possibilidades artísticas da vertente, sem vergonha e com muito amor.

Os prêmios podem ajudar a derrubar o preconceito em relação ao cinema fantástico?

Tão importante quanto os prêmios é a atenção que o gênero tem recebido. Nesta temporada há dois filmes de gênero que são profundamente políticos: “A forma da água” e “Corra!”, duas fábulas que tocam em temas pertinentes à situação social atual. Ganhar o Oscar ou não é o que menos interessa agora, mas sim a discussão que esses dois filmes estão provocando.

A fantasia é o último dos gêneros a ser legitimados por seus pares — a comédia, o melodrama, o musical e até o policial já o foram. Creio que o último refúgio para o fantástico é a sua legitimação como narrativa, nem melhor nem pior com os outros tipos de cinema.

Entre os temas contemplados em “A forma da água” estão sexismo e assédio sexual no trabalho. O senhor recebeu o Globo de Ouro de direção numa cerimônia marcada por protestos feministas. Como vê o momento?

O filme chega aos cinemas numa época importante em termos de políticas identitárias. Vejo como um instante decisivo para diversas lutas e reivindicações humanitárias. Foi importante e potente a observação de Natalie Portman ao anunciar os candidatos ao prêmio de direção, ressaltando que eram “todos homens”.

A mudança nas relações de trabalho é vital. A marginalização da mulher se dá em todos os âmbitos sociais. E também é perceptível de forma terrível na América Latina. Na indústria de sapatos, no setor bancário, no departamento científico, no entretenimento, a discriminação é real, e tem que acabar. Só podemos aspirar por alguma esperança de futuro se estivermos unidos.

Não há “nós” sem reconhecermos o “outro”. O grande passo se dá pela descoberta de que estamos no mesmo barco. Ou vivemos juntos ou morremos juntos. São as únicas opções.

A criatura aquática de “A forma da água” é vítima de uma ideia ou de uma ideologia? Que paralelos o senhor faz entre os EUA da Guerra Fria, descrita no filme, e os EUA de Trump?

A diferença entre ideia e ideologia é que a primeira surge da vivência, e inteligência; e a segunda nos chega como um dogma. A maioria dos atos brutais ocorridos ao longo da História é fruto de ideologias e preconceitos, não de ideias. Os vilões são seres que têm a profunda certeza de que estão fazendo o que acreditam ser o correto.
A criatura assume diferentes significados para cada personagem: para Giles (Richard Jenkins), ela é um deus, porque lhe devolveu os cabelos perdidos com a idade; para Zelda (Octavia Spencer), é o homem que ama a sua melhor amiga, para os cientistas é um milagre da natureza, e para Strickland (Michael Shannon), o agente do governo, ela é uma coisa obscura e vil que veio da América do Sul. O filme contempla todos essas percepções.

“A forma da água” é plasticamente elaborado. De que modo o visual expressa seu conteúdo?

A aparência de um filme é resultado da coordenação entre os departamentos de arte, vestuário, fotografia e a direção. As cores assumem papel fundamental na história.

Os tons de azul predominam no apartamento de Elisa; as casas dos demais são em tons cálidos, âmbar, alaranjados. O vermelho surge em detalhes, simbolizando o amor e a vida. O verde, a cor predominante no laboratório, representa a obsessão de uma América pela ideia de futuro.

Essa paleta sublinha outro tema do filme: a necessidade de se viver o presente. Há personagens apegados ao passado, como o artista, e ao futuro, como os cientistas. Elisa e o homem-peixe são os únicos que vivem o agora.

O filme custou US$ 19,5 milhões, mas parece uma superprodução dez vezes mais cara. Qual o segredo?

O modo de narrar. É um filme de grandes gestos, que faz com que o espectador acredite que é maior do que realmente é. Os primeiros cinco minutos são de sequências de grande escala, um plano fenomenal debaixo d’água, um laboratório gigantesco e um ser de aparência espetacular, que deixa todo mundo embasbacado.
Há um ou outro momento grandioso mais na frente, como o número musical entre a criatura e a protagonista. Mas, feitas as contas, 70% da história acontecem em ambientes minúsculos. É um efeito parecido com o que ocorre na minha vida, quando apareço um dia num restaurante caríssimo, aonde só volto um ano e meio depois. Aí as pessoas se perguntam: “Como Guillermo leva uma vida tão nababesca?”. (risos)


“A Forma da Água” (“The Shape of Water -2017”) Trailer Legendado